quinta-feira, 15 de novembro de 2007

O tempo e a saudade

O tempo existe e a saudade persiste. Dizem que é palavra única em nossa língua portuguesa. Mas que vale o argumento se o sentir dispensa idioma. É transnacional e transmissível. Saudade é recurso da memória. O tempo não tem aviso prévio, e se manifesta do nada, quando menos esperamos, no momento em que tomamos uma decisão completamente diferente daquela que teríamos no ano passado, ou no instante inacabado. Chamamos isso de maturidade e ainda queremos ser maduros sem envelhecer. Quanto ocidentalismo em vão. O valor do tempo quem dá somos nós... mas a saudade persiste enquanto houver memória.   
(apenas um pensamento para perder tempo). 

terça-feira, 13 de novembro de 2007

Mercado de almas

Curriculum Vitae

Que é necessário fazer?
É necessário preencher um requerimento
E anexar um curriculum vitae.

Qualquer que seja a duração da vida
O C. V. deve ser sucinto.
Recomenda-se a concisão e uma boa seleção dos dados.
Transformar o que era paisagem em endereço.
E as vagas lembranças em datas fixas.

De todos os amores, basta o conjugal,
De todos os filhos, só os que nasceram.
Quem te conhece, não quem conheces.
Viagens, só ao exterior.
Filiações sem as razões.
Distinções sem menção ao mérito.

Escreva como se nem te conhecesses.
Como se te mantivesses sempre à distância de ti.
Silêncio total sobre cães, gatos, passarinhos,
Lembranças, amigos e sonhos.

Prêmios, mais que o valor.
Títulos, mais que a relevância.
Número dos sapatos, e não onde eles vão.
Anexar uma foto com orelhas bem visíveis.
É a forma delas que conta, e não o que elas ouvem.
E o que é que elas ouvem?
Barulho de máquinas de picar papel.

(Wislawa Szymborska, poeta polonesa, nasceu em 1923 e ganhou o prêmio Nobel de Literatura em 1996).

Retirado do blog: http://diariogauche.blogspot.com/

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Café com Osama

Em Moçambique, apelidaram o açúcar de Bin Laden, nome dado por mukherista (contrabandistas).  "Estabeleceu-se uma analogia entre a procura desenfreada que os americanos levaram a cabo para descobrir Bin Laden e a busca que as autoridades moçambicanas fazem do açúcar vindo do exterior. Bin Laden está escondido debaixo das montanhas, o açúcar, quando o trazem do exterior, é escondido debaixo de todas as mercadorias para não ser descoberto". 

Fonte: Dicionário Temático da Lusofonia. 

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

Quatro momentos da Literatura Africana

1. Momento inicial: alienação e predomínio do modelo europeu Ex.: O escravo (José Evaristo de Almeida, 1856, considerado o primeiro romance de Cabo Verde).

2. Maior consciência regionalista, com descrições do meio social, geografia, cultura. Ex.: textos da Revista Claridade

3. A tomada de consciência da condição de colonizado liberta o autor, que traz para suas obras as raízes profundas da realidade social, nacional, entendida dialeticamente. Ex.: autores militantes.

4. Independência nacional. É de todo eliminada a dependência dos escritores africanos e reconstruída sua plena individualidade.  

Fonte: António Custódio Gonçalves. África Subsariana, multiculturalisos, poderes e etnicidades. FLUP. 

Na roda da vida



O programa Roda Viva traz um site com todas as entrevistas em vídeo e transcritas, no endereço http://rodaviva.fapesp.br. Ainda em desenvolvimento, a página é um precioso acervo para recordar momentos importantes de nossa história. No vídeo acima, Heródoto Barbeiro relembra dois encontros tensos com Quércia (94) e um dos ícones do folclore da política nacional: Brizola (87).

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Mia Rosa, Guimarães Couto

"O meu país tem países diversos dentro, profundamente dividido entre universos culturais e sociais variados. Sou moçambicano, filho de portugueses, vivi o sistema colonial, combati pela independência, vivi mudanças radicais do socialismo ao capitalismo, da revolução à guerra civil. Nasci num tempo de charneira, entre um mundo que nasceu e outro que morria. Entre uma pátria que nunca houve e outra que ainda está nascendo. Essa condição de um ser de fronteira marcou-me para sempre. As duas partes de mim exigiam um médium, um tradutor. A poesia veio em meio socorro para criar essa ponte entre dois mundos distantes.

E foi poesia que me deu o prosador João Guimarães Rosa. Quando o li pela primeira vez experimentei uma sensação que já tinha sentido quando escutava os contadores de história da infância. Perante o texto eu não simplesmente lia: eu ouvia vozes da infância. Os livros de Rosa me atiravam para fora da escrita como se, de repente, eu me tivesse convertido num analfabeto seletivo. Para entrar naqueles textos eu devia fazer uso de um outro ato que não é ler mas que pede um verbo que ainda não tem nome. Mais do que a invenção das palavras, o que me tocou foi a emergência de uma poesia que me fazia sair do mundo, que me fazia inexistir. Aquela era uma linguagem em estado de transe".

Fonte: Mia Couto no livro Pensatempos.