sexta-feira, 9 de novembro de 2007

Quatro momentos da Literatura Africana

1. Momento inicial: alienação e predomínio do modelo europeu Ex.: O escravo (José Evaristo de Almeida, 1856, considerado o primeiro romance de Cabo Verde).

2. Maior consciência regionalista, com descrições do meio social, geografia, cultura. Ex.: textos da Revista Claridade

3. A tomada de consciência da condição de colonizado liberta o autor, que traz para suas obras as raízes profundas da realidade social, nacional, entendida dialeticamente. Ex.: autores militantes.

4. Independência nacional. É de todo eliminada a dependência dos escritores africanos e reconstruída sua plena individualidade.  

Fonte: António Custódio Gonçalves. África Subsariana, multiculturalisos, poderes e etnicidades. FLUP. 

Na roda da vida



O programa Roda Viva traz um site com todas as entrevistas em vídeo e transcritas, no endereço http://rodaviva.fapesp.br. Ainda em desenvolvimento, a página é um precioso acervo para recordar momentos importantes de nossa história. No vídeo acima, Heródoto Barbeiro relembra dois encontros tensos com Quércia (94) e um dos ícones do folclore da política nacional: Brizola (87).

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Mia Rosa, Guimarães Couto

"O meu país tem países diversos dentro, profundamente dividido entre universos culturais e sociais variados. Sou moçambicano, filho de portugueses, vivi o sistema colonial, combati pela independência, vivi mudanças radicais do socialismo ao capitalismo, da revolução à guerra civil. Nasci num tempo de charneira, entre um mundo que nasceu e outro que morria. Entre uma pátria que nunca houve e outra que ainda está nascendo. Essa condição de um ser de fronteira marcou-me para sempre. As duas partes de mim exigiam um médium, um tradutor. A poesia veio em meio socorro para criar essa ponte entre dois mundos distantes.

E foi poesia que me deu o prosador João Guimarães Rosa. Quando o li pela primeira vez experimentei uma sensação que já tinha sentido quando escutava os contadores de história da infância. Perante o texto eu não simplesmente lia: eu ouvia vozes da infância. Os livros de Rosa me atiravam para fora da escrita como se, de repente, eu me tivesse convertido num analfabeto seletivo. Para entrar naqueles textos eu devia fazer uso de um outro ato que não é ler mas que pede um verbo que ainda não tem nome. Mais do que a invenção das palavras, o que me tocou foi a emergência de uma poesia que me fazia sair do mundo, que me fazia inexistir. Aquela era uma linguagem em estado de transe".

Fonte: Mia Couto no livro Pensatempos.

Boaventura de Sousa Santos analisa...

Tudo leva a crer que estejamos perante uma nova partilha de África. A do final do século XIX foi protagonizada pelos países europeus em busca de matérias-primas que sustentassem o desenvolvimento capitalista e tomou a forma de dominação colonial. A do início do século XXI tem um conjunto de protagonistas mais amplo e ocorre através de relações bilaterais entre países independentes. Para além dos “velhos” países europeus, a partilha inclui agora os EUA, a China, outros países “emergentes” (Índia, Brasil, Israel, etc.) e mesmo um país africano, a África do Sul. Mas a luta continua a ser por recursos naturais (desta vez, sobretudo petróleo) e continua a ser musculada, com componentes econômicos, diplomáticos e militares. Tragicamente, tal como antes, é bem possível que a grande maioria dos povos africanos pouco beneficie da exploração escandalosamente lucrativa dos seus recursos.

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

Arte no barbante


CORDEL

Desafio

*** Tom Zé e Gilberto Assis

Doutor: Meus senhores, vou lhes apresentar
A figura do homem popular,
Esse tipo idiota e muquirana
É um bicho que imita a raça humana.

O homem: O doutor exagera e desatina
Pois quando o pobre tem no seu repasto
O direito à escola e proteína
O seu cérebro cresce qual um astro
E começa a nascer pra todo lado
Jesus Cristo e muito Fidel Castro

Refrão:
Africará mingüê e favelará
mérica de verme que deusará
Iocuné Tatuapé Irará

Doutor: Veja o pobre de hoje: quer tratar
Do direito, da lei, ecologia.
É na merda que eles vão parar
Ou na peste, maleita, hidropisia.

O homem: Mas o Direito, na sua amplitude
Serve o grande e o pequeno também.
Além disso quem chega-se à virtude
E da lei se aproxima e se convém
Tá mostrando ao doutor solicitude
Por querer o que dele advém.

Refrão:
Africará minguê ... ... etc.

terça-feira, 6 de novembro de 2007

Cena pitoresca

Estava eu pedindo um inocente sanduba num café quando chega perto de mim um senhor e me pergunta:

_Você é brasileira?
Eu digo:
_Sim
E ele:
_Eu não gosto de brasileiro. Só conheci um que prestasse. Esse é como se fosse um irmão para mim.
Eu respondo:
_Bom, o senhor está no seu direito. Mas isso não tem nada a ver com nacionalidade. Há gente boa e ruim em toda a parte.

Levei em conta a idade do senhor e tentei colocar em prática mais uma vez alguns preceitos budistas (na minha meta de alcançar a iluminação em Portugal). Ele voltou pro lugar dele e antes de eu ir embora me pediu para não ficar chateada. Vai entender! Ainda bem que ele não estava de bengala.