terça-feira, 6 de novembro de 2007

Nas partidas do mundo

Eduardo Lourenço disse sobre a lusofonia "não sejamos hipócritas, mas sobretudo voluntariamente cegos: o sonho de uma Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, bem ou mal sonhado, é por natureza - que é sobretudo histórica e mitológica - um sonho de raiz, de estrutura de intenção e amplitude lusíada".

Para ele, há dois aspectos fundamentais sobre lusofonia: (1) a língua (e para isso reconhecer a diversidade é preciso) e (2) a cultura (sob perspectiva simbólica, o povo português preenche um espaço imaginário de nostalgia imperial para que se sinta menos só e seja visível nas sete partidas do mundo). FONTE Comunicação e lusofonia.

De fato, o termo lusofonia não se desvinculou ainda do seu caráter eurocêntrico e colonialista. Com a RTP África, a comunicação em língua portuguesa ganhou algum diferencial enquanto potencial estratégico para Portugal. Além de iniciativas mais isoladas. No entanto, a perspectiva cultural na ajuda ao desenvolvimento parece não alcançar o que deveria ser seu real objetivo: incentivar a evolução social dos povos com base na educação. Ontem ouvi uma frase interessante sobre os projetos de cooperação, que a União Européia dá com uma mão e tira com a outra. Sempre que leio algum material (midiático) sobre África tenho percebido que os assuntos na área de cultura primam por valorizar a riqueza e os vastos universos das regiões, suas particularidades, razões e sentidos. Ao passo que as análises econômicas e políticas têm na maioria das vezes uma visão simplista do continente como objeto de exploração. Mas acho muito leviano escrever sobre a África sem ter lá estado, conhecido algum país e suas realidades. E mesmo assim isso ainda seria o olhar do estrangeiro, histórias ditas. As pessoas têm o direiro de escrever, registrar e contar a sua própria história.

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Juca Rosa, um feiticeiro no Rio do séc XIX

Nunca tinha ouvido falar em Juca Rosa até ler o artigo de Gabriela Sampaio, da Universidade Estadual de Campinas, estampado no livro África Subsaariana: Multiculturalismo, Poderes e Etnicidades. Com o título "A história do feiticeiro Juca Rosa: matrizes culturais da África Subsaariana em rituais religiosos brasileiros do século XIX", o texto conta a vida do curandeiro Rosa, nascido no Rio em 1833, filho de mãe africana. Segundo a publicação, desde 1860 Rosa liderava uma misteriosa associação, de vasta clientela, atendendo desde escravos libertos a políticos influentes. "Membros de diferentes grupos sociais se deslocavam até sua casa em busca de conselhos e prodigiosas curas". Nos rituais, conta a pesquisadora, Rosa usava uma camisa branca e uma calça de veludo azul com franjas prateadas; na cabeça, um gorro de veludo com franjas e bordas também prateadas. Pai Quibombo era um dos nomes pelo qual era conhecido, pelo visto um dos primeiros pais-de-santo do Rio de Janeiro. O estudo contribui para mostrar a confluência de tradições que ocorria no Brasil imperial e para entender melhor o confronto cultural entre africanos e europeus nas Américas.

Ela finaliza: "partindo da história de Juca Rosa chegamos à grande influência de tradições culturais da África Centro-Ocidental nas origens do que se conhece hoje como umbanda e candomblé, religiões afro-brasileiras de grande popularidade em todo o país, entre pessoas provenientes de grupos populares mas também entre intelectuais e membros das elites políticas e econômicas".

domingo, 4 de novembro de 2007

Enredo deste samba


Salve Dona Ivone Lara!

Camões em Forro

Amuêlê sá ua Fôgô cu cá lêdê sê pá abê;
ê sá flida cu cá dá dôlô, magi ê Sá mó fingui- lóló;
ê sua contentamento sê contento,
ê sá dôlô cu cá fé - a tlapaiá sê pá a sêbê.

Versão para Forro de São Tomé de:

Amor é fogo que arde sem se ver;
é ferida que dói e não se sente;
é um contentamento descontente
é dor que desatina sem doer.

Fonte: Pereira, Dulce (2006). O essencial sobre a Língua Portuguesa - Crioulos de base portuguesa. Caminho. Lisboa.

Dinheiro é uma coisa, literatura é outra

O escritor Arnaldo Saraiva entrevistou Drummond em 1981. A conversa foi publicada no Jornal de Letras. Em um dos trechos ele questiona o poeta sobre sua recusa a se candidatar ao Nobel e se o prêmio não seria uma maneira de contribuir para o prestígio internacional das literaturas de língua portuguesa. Veja a resposta:

Drummond:

_ Não compreendo bem o sentidos dos prêmios literários. Já recebi alguns e sou grato à lembrança de quem os concedeu, pois há sempre um elemento de simpatia na concessão, e simpatia, se agradece. Mas não sei realmente como se possa premiar uma obra literária. Ela existe e perdura, independentemente de prêmios. Eles não estimulam a criação de outras obras, pois tudo resulta de uma necessidade e compulsão interiores, não de incentivos externos. A dádiva material não significa nada quanto ao futuro dos textos que a motivaram. Dinheiro é uma coisa, literatura é outra. E pouco me importa se meu país será beneficiado com um prêmio individual de literatura. Importa-me sim saber se temos em nossa história um escritor chamado Machado de Assis, e que esse escritor representa condignamente a nossa capacidade de criação e acrescentamento dos valores literários.

Fonte: Saraiva, Arnaldo (2000). Conversas com escritores brasileiros. Comissão Nacional para as Comemoração dos Descobrimentos Portugueses. Porto. \\ Caricatura: Carilho.

...Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero...

...Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.

sábado, 3 de novembro de 2007

Um filme falado


"Os portugueses andaram por todo o mundo. Os gregos também percorreram o Mediterrâneo e muito para o Oriente. Cerca de 40% dos nossos idiomas têm uma raiz grega". Este é um dos trechos de Um filme falado. A obra, que tem linda paisagem, mostra um diálogo interessante sobre a língua, numa mesa que reúne personagens de várias nacionalidades e cada um fala seu próprio idioma. As três mulheres presentes na mesa são poliglotas. No entanto, elas dizem que não dominam a língua portuguesa. A mulher grega faz uma comparação do idioma luso com o grego no sentido de discutir a propagação de cada um deles. Em determinado momento da conversa multilingue, o comandante (que fala inglês) diz: "não notou que nesta mesa cada um fala sua própria língua? Começo a achar que vocês seriam capazes de recriar uma nova harmoniosa Babel. Onde todos falássemos a mesma língua à sombra da árvore do bem".