domingo, 14 de outubro de 2007

Acordo em desacordo

O site da CPLP traz uma lista de perguntas e respostas sobre o mitológico Acordo Ortográfico (AO) da Língua Portuguesa, que desafia o tempo. Em 2011 o documento completa seu centenário de empurra-empurra, deixa que eu deixo, diz que me disse e faz que não faz. Em termos de ação multilateral, parece fracassar mais uma vez a força do diálogo, ironicamente, nesta batalha em favor da língua. Há quem considere o AO importante para a sobrevivência do idioma no mundo, sobretudo nas entidades internacionais. Mas há quem o classifique também como supérfluo, tendo em vista as questões muito mais emergenciais nos países do dito espaço lusófono. O documento que a CPLP disponibiliza é bem recente (1/10/07) e pode esclarecer dúvidas nesta fase em que o acordo dá sinais. Veja link:

CLIQUE E ACESSE A LISTA DE PERGUTAS FREQUENTES SOBRE O ACORDO ORTOGRÁFICO

sexta-feira, 12 de outubro de 2007

Amilcar Cabral: sobre a língua portuguesa

Escreveu Amilcar Cabral sobre a língua portuguesa (livro Literaturas africanas de expressão portguesa - Pires Laranjeira):

A língua é o instrumento que o homem criou através do trabalho, da luta, para comunicar com os outros. E isso deu-lhe uma grande força nova, porque ninguém mais ficou fechado consigo mesmo. Foi o primeiro meio de comunicação natural que houve, a língua. Mas o mundo avançou muito, nós não avançamos muito, tanto como o mundo.

Há muita coisa que não podemos dizer na nossa língua, mas há pessoas que querem que ponhamos de lado a língua portuguesa, porque nós somos africanos e não queremos a língua de estrangeiros. Esses querem é avançar a sua cabeça, não é o seu povo que querem fazer avançar. Nós, Partido, se queremos levar para a frente nosso povo, para escrevermos, para avançarmos na ciência, a nossa língua tem que ser a portuguesa. É a única coisa que podemos agradecer ao tuga**, ao fato de ele nos ter deixado a sua língua depois de ter roubado tanto da nossa terra.
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**Tuga(s) é uma expressão utilizada para designar o(s) portugues(es), tal como acontece com Lusitanos. É uma abreviatura de Portuga. Termo popularizado no decurso da Guerra Colonial.

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

Jornal de Letras X Lauro Moreira

Confira trecho da entrevista do embaixador brasileiro na CPLP, Lauro Moreira, publicada em agosto no Jornal de Letras (entrevista por Rodrigues da Silva):

JL: Qual é o interesse da CPLP para com o Brasil?
Moreira: Num quadro multilateral o Brasil pode reforçar as suas posições. Como o fato de Guiné-Bissau fazer parte da CPLP dá a ela muito mais condições para tentar superar suas dificuldades.

JL: Se o sr. embaixador sair aqui da embaixada e na rua ouvir mil pessoas só por milagres encontrará duas que saibam o que é CPLP. Não sei como é no Brasil.
Moreira: Não é muito diferente, embora esteja a melhorar. O fato de me telefonarem do Brasil, de tudo que é lugar, publicando matérias sobre o Acordo Ortográfico, aí já a coisa interessa, porque já se faz o link com a CPLP.

JL: Qual é a missão da embaixada do Brasil junto à CPLP?
Moreira: Essa Embaixada foi criada pelo governo brasileiro em 2006 (janeiro) e eu estou na função desde agosto. O meu staf, num total de 14 pessoas, é formado por quadros do Ministério das Relações Exteriores do Brasil e por contratados locais. Atuamos de maneira completamente independente da Embaixada do Brasil junto do Governo Português. O Brasil foi o primeiro país a tomar essa iniciativa de criar uma missão diplomática para tratar com exclusividade os assuntos da CPLP.

JL: Serve para quê o Instituto Internacional de Língua Portuguesa (IILP)?
Moreira: A meu ver, é o elemento dinamizador da defesa e promoção da língua portuguesa.

JL: O que é Portugal para o brasileiro comum? Não me responda com o chavão.
Moreira: Tradicionalmente, era o meu avozinho. Não é mais. É um país ligado ao brasileiro pelo coração. Todo brasileiro que passa por Portugal gosta.

JL: Mesmo os imigrantes.
Moreira: Mesmo os imigrantes com as dificuldades todas que têm.

JL: Sobre o Brasil, sabemos mais de suas telenovelas e do seu futebol do que seus grandes autores.
Moreira: Sabe qual é o problema de não haver livros brasileiros aqui? É não haver Acordo Ortográfico.

JL: Desculpe, mas não acredito.
Moreira: Sim senhor.

JL: Desculpe, mas para mim a dificuldade em ler brasileiro não tem a ver com as diferenças ortográficas, mas com a sintaxe.
Se me falar em Guimarães Rosa, está certo.

domingo, 7 de outubro de 2007

Desse vinho beberei?

Clique na imagem acima para conhecer uma tradição do Douro chamada Lagarada. Nela, pisar em uvas para obtenção do vinho se transforma em atividade para exercitar as pernas e experimentar uma sensação diferente, considerada até mesmo terapêutica. Só que para entrar nessa brincadeira não é preciso lavar os pés. A festa é aberta ao público e para participar a ordem é não se preocupar com o fator higiene. Ao contrário, quanto menos, melhor (Ui!). Diz o senhor entrevistado, "é assim que o vinho sai bem". O outro complementa: "quanto mais sujo o pé melhor, o vinho fica com mais graduação, mais gás". No final todo mundo se lava num baldão cheio d' água e ganha a rua, onde a celebração prossegue.

Emigração guineense

As fontes para estudo sobre emigração guineense são raras, senão inexistentes. Assim sendo, para elaborar o tópico, os autores do Dicionário Temático da Lusofonia (Texto Editores, pág. 284) fizeram o estudo com base nos conhecimentos da realidade, e dos fenômenos de emigração, e épocas em que se realizaram. As únicas informações encontradas são do SEF (Serviços de Estrangeiros e Fronteiras).

O grande surto de imigração guineense deu-se em 1935 (Senegal e França) com as comunidades manjacas, tendo em vista reforçar os estudos, as pesquisas e a componente formativa, ou a melhoria das condições de vida, com muitos aderentes ao exército francês durante a II Guerra Mundial. Nos anos 50 esse surto dirigiu-se a Portugal, com a chamada primeira geração, cujo objetivo se prendia com a formação, a língua e a cultura portuguesas, como partes integrantes do sistema colonial.

A segunda geração nos anos pós-independência, com todas as conseqüências, concentrou-se em Loures, Amadora, Oeiras, Porto, Coimbra, Alentejo etc. Estima-se que a comunidade guineense residente em Portugal integre 50 mil pessoas divididas em três grupos: muçulmanos, cristãos (católicos e protestantes) e animistas. Segundo dados do SEF português, a mesma comunidade integrava em 2001 em Portugal 17.580 pessoas legalizadas, das quais 10.931 em Lisboa. As restantes estão espalhadas pelas zonas urbanas e do litoral, sendo certo que o número de ilegais ultrapassa o de legais.

Há ainda comunidades da diáspora guineense na Gâmbia, Guiné-Conacri, Espanha, Angola, EUA e Brasil.

terça-feira, 2 de outubro de 2007

Fases da Ortografia Portuguesa (do século XIII à atualidade)

*Fase da ortografia fonética: do século XIII ao XVI. Coincide com o período arcaico da língua, quando os copistas procuravam escrever pautando-se pela pronúncia. Exemplo: não se grafava letra não pronunciada; o h inicial não existia.

*Fase pseudo-etimológica: do século XVI até 1904. Caracteriza-se pela influência greco-latina, advinda com o Renascimento. A escrita latina passa a modelo da nossa, inserindo hábitos gráficos clássicos eruditos. Exemplos: rh, th, ph e ch (som de k): theatro. A escrita torna-se mais difícil e pseudo-entendidos determinam as histórias das palavras, defendendo o emprego de grafias desusadas ou equivocadas. Exemplos: egreja, sancto, eschola.

*Fase simplificada: de 1904 até nossos dias. Está diretamente relacionada ao trabalho que Gonçalves Viana publica em 1904, Ortografia Nacional, que revela uma análise da história interna da língua, bem como suas tendências fonéticas. Princípios de seu trabalho: eliminação dos símbolos de etimologia grega th, ph, ch (com som de k), rh, y. (theatro – teatro / pharmacia – farmácia); b) Eliminação de consoantes duplas, exceto rr e ss; c). Eliminação de consoantes mudas (septe – sete / sancto – santo).

Em 1911 o novo sistema tornou-se oficial por um decreto do governo português.

Fonte: HOUAISS, Antônio. A nova ortografia da Língua Portuguesa. Editora Ática, 1991.

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

Fados, Caetano e bacalhau

Esse fim de semana fui ao cinema e vi o trailer de Fados, que parece ótimo. O filme, do espanhol Carlos Saura, faz parte de uma trilogia, vindo depois de Flamenco e Tango. Só falta agora Sambas, dentro da lógica de alternância/interface Europa e América Latina, espanhol e língua portuguesa. Quero muito assistir. No entanto, um trecho me fez quase levantar da cadeira: Caetano Veloso cantando fado! É muito ruim. Em "Hable com ella", do igualmente espanhol Almodóvar, a performance foi melhor com “Cucurrucucú Paloma”. Tudo bem que Caetano seja cult, né? Agrada a galera blasé. Eu não vou negar que gosto da obra dele, curto suas músicas, mas tem hora que é muita "forçação". Enfim, já que a cantora Adriana Calcanhoto sugere "Vamos comer Caetano" (e em seguida ela mesma diz "nós queremos bacalhau"), depois de Fados, acredito que os portugueses já possam criar um novo prato; Caetano à Gomes de Sá. Chico Buarque e Toni Garrido também estão no elenco, mas no trailer o único que teve a sorte de aparecer cantando é Caetano. Vou esperar para ver inteiro, de repente foi só uma desafinada poética. O filme já teve exibição em Lisboa e foi muito aplaudido, como não poderia deixar de ser, pela própria exaltação da cultura lusa. Essa semana deve chegar por cá.

OLHA ela aí, bom apetite: "Vamos comer Caetano / Vamos desfrutá-lo / Vamos comer Caetano / Vamos começá-lo / Vamos comer Caetano / Vamos devorá-lo degluti-lo, mastigá-lo / Vamos lamber a língua / Nós queremos bacalhau / A gente quer sardinha / O homem do pau-brasil / O homem da Paulinha / pelado por bacantes / num espetáculo / Banquete-ê-mo-nos / Ordem e orgia na superbacanal / Carne e carnaval / Pelo óbvio / Pelo incesto / Vamos comer Caetano / Pela frente pelo verso / Vamos comê-lo cru / Vamos comer Caetano / Vamos começá-lo / Vamos comer Caetano / Vamos revelar-mo-nus."