terça-feira, 2 de outubro de 2007

Fases da Ortografia Portuguesa (do século XIII à atualidade)

*Fase da ortografia fonética: do século XIII ao XVI. Coincide com o período arcaico da língua, quando os copistas procuravam escrever pautando-se pela pronúncia. Exemplo: não se grafava letra não pronunciada; o h inicial não existia.

*Fase pseudo-etimológica: do século XVI até 1904. Caracteriza-se pela influência greco-latina, advinda com o Renascimento. A escrita latina passa a modelo da nossa, inserindo hábitos gráficos clássicos eruditos. Exemplos: rh, th, ph e ch (som de k): theatro. A escrita torna-se mais difícil e pseudo-entendidos determinam as histórias das palavras, defendendo o emprego de grafias desusadas ou equivocadas. Exemplos: egreja, sancto, eschola.

*Fase simplificada: de 1904 até nossos dias. Está diretamente relacionada ao trabalho que Gonçalves Viana publica em 1904, Ortografia Nacional, que revela uma análise da história interna da língua, bem como suas tendências fonéticas. Princípios de seu trabalho: eliminação dos símbolos de etimologia grega th, ph, ch (com som de k), rh, y. (theatro – teatro / pharmacia – farmácia); b) Eliminação de consoantes duplas, exceto rr e ss; c). Eliminação de consoantes mudas (septe – sete / sancto – santo).

Em 1911 o novo sistema tornou-se oficial por um decreto do governo português.

Fonte: HOUAISS, Antônio. A nova ortografia da Língua Portuguesa. Editora Ática, 1991.

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

Fados, Caetano e bacalhau

Esse fim de semana fui ao cinema e vi o trailer de Fados, que parece ótimo. O filme, do espanhol Carlos Saura, faz parte de uma trilogia, vindo depois de Flamenco e Tango. Só falta agora Sambas, dentro da lógica de alternância/interface Europa e América Latina, espanhol e língua portuguesa. Quero muito assistir. No entanto, um trecho me fez quase levantar da cadeira: Caetano Veloso cantando fado! É muito ruim. Em "Hable com ella", do igualmente espanhol Almodóvar, a performance foi melhor com “Cucurrucucú Paloma”. Tudo bem que Caetano seja cult, né? Agrada a galera blasé. Eu não vou negar que gosto da obra dele, curto suas músicas, mas tem hora que é muita "forçação". Enfim, já que a cantora Adriana Calcanhoto sugere "Vamos comer Caetano" (e em seguida ela mesma diz "nós queremos bacalhau"), depois de Fados, acredito que os portugueses já possam criar um novo prato; Caetano à Gomes de Sá. Chico Buarque e Toni Garrido também estão no elenco, mas no trailer o único que teve a sorte de aparecer cantando é Caetano. Vou esperar para ver inteiro, de repente foi só uma desafinada poética. O filme já teve exibição em Lisboa e foi muito aplaudido, como não poderia deixar de ser, pela própria exaltação da cultura lusa. Essa semana deve chegar por cá.

OLHA ela aí, bom apetite: "Vamos comer Caetano / Vamos desfrutá-lo / Vamos comer Caetano / Vamos começá-lo / Vamos comer Caetano / Vamos devorá-lo degluti-lo, mastigá-lo / Vamos lamber a língua / Nós queremos bacalhau / A gente quer sardinha / O homem do pau-brasil / O homem da Paulinha / pelado por bacantes / num espetáculo / Banquete-ê-mo-nos / Ordem e orgia na superbacanal / Carne e carnaval / Pelo óbvio / Pelo incesto / Vamos comer Caetano / Pela frente pelo verso / Vamos comê-lo cru / Vamos comer Caetano / Vamos começá-lo / Vamos comer Caetano / Vamos revelar-mo-nus."

domingo, 30 de setembro de 2007

Variações do mesmo tema

Se alguém te chamar de trugalheiro em Portugal, certamente você tentou saber da vida de alguém. Isso porque, de acordo com os diversos regionalismos que existem no país, a expressão significa pessoa curiosa. Mas tudo depende de onde você pisar. Se estiver aborrecido está também marafado. E se perceberem que você anda à porra ou à massa, então tente levantar o astral pois a expressão quer dizer zanga, briga.
Para saber mais, CLIQUE na imagem e veja matéria da SIC sobre regionalismos em Portugal. A reportagem percorre o país de Norte a Sul mostrando os contrastes dos termos entre variados cantos. Ao pensar a língua portuguesa como um bem cultural fragmentado, descobrindo ainda suas nuances dentro do território genuinamente luso, cada vez mais o idioma se coloca no plano do mítico.

Lusofoninha

O imaginário infantil ganhou recentemente uma ponte entre Brasil e Portugal. De olho no mercado lusófono, Mauricio de Sousa criou Antônio Alfacinha, personagem português que pode familiarizar as crianças com as diversificações do nosso idioma. Isso porque o novo membro da turma vem com sotaque lusitano e dialogará com Mônica, Cebolinha, Cascão e Magali.

De acordo com matéria publicada no Jornal do Mundo Lusíada, os gibis deverão ter uma distribuição em todo Brasil e também em Portugal. O sobrenome dele é uma alusão aos lisboetas, divulgou a assessoria de imprensa de Maurício. A proposta é a de que os leitores se divirtam com as diferenças entre o português do Brasil e o de Portugal.

sábado, 29 de setembro de 2007

Língua e guerrilha

Em Moçambique, no período pré-independência a população adquiria o português de forma motivada, especialmente pelo status no plano sócio-cultural, econômico e até ideológico, uma vez que a assimilação do conhecimento pelos africanos significava ascensão social. Quando em 1962 a luta armada contra a metrópole se inicia, a Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique) escolhe o português como língua de comunicação entre moçambicanos de línguas diferentes envolvidos na ação. As justificativas dos dirigentes da Frelimo baseavam-se no fator lingüístico, afirmando ser a única língua capaz de minimizar as diferenças entre muitas línguas do território, propiciar uma certa unidade no próprio movimento, além, claro, de ajudar a conhecer o opositor comum. Será, portanto, o português a língua dos dois lados da luta: do poder da metrópole e da resistência da colônia.

Outra leitura da escolha do português como língua do movimento: necessidade de conhecimento técnico para o manejo do armamento usado na guerra e principalmente aos interesses do grupo dirigente (que não dominava as línguas nacionais) - para a manutenção do seu status de grupo social dominante.

Mas a realidade da guerra mostra que as línguas locais de cada região foram amplamente usadas pelas lideranças para atingirem a população. Em quase todos os discursos políticos, as línguas locais assumem um papel que jamais o português poderia ter.

Com a independência, o português foi usado como língua oficial: comunicação com a comunidade internacional (língua de unidade nacional, era o discurso vigente).

Fonte: Artigo Regina Brito e Neusa Maria Bastos, livro Comunicação e Lusofonia - para uma abordagem crítica da cultura e dos media. Editora: Campo das Letras.

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

Peito Vazio

Peito Vazio é uma das minhas preferidas do gênio e mestre Cartola. Vale a pena ouvir. (vídeo acima)

Erro de português

Esse poema pra mim é o encontro perfeito entre palavra e significado. E nos joga diretamete para o simbólico. Fala por si em nome da crítica à aculturação e situa o abismo para com o outro.

ERRO DE PORTUGUÊS (Oswald de Andrade)

Quando o português chegou

Debaixo de uma bruta chuva

Vestiu o índio

Que pena!

Fosse uma manhã de sol

O índio tinha despido

O português