quarta-feira, 12 de setembro de 2007

A Hora Brasileira na Emissora Nacional de Lisboa

Encontrei num sebo o livro Palavras aos portugueses, edições Dois Mundos, Brasil e Portugal. Nele, um discurso pronunciado ao microfone da Emissora Nacional de Lisboa, em 20 de março de 1944, classifica como co-sangüínea a relação entre os dois países. Diz que a geografia nos afasta, mas o coração nos une, entre outras observações passionais. O texto fala ainda de uma produção poética brasileira julgada, na época, como fruto de uma inspiração lusitana. Aí vão alguns trechos do pronunciamento:

“A Emissora Nacional recomeça esta noite a irradiar a sua Hora Brasileira.

(...) O parentesco, a língua, a formação moral e religiosa, o mesmo estilo de vida doméstica e social já por si garantiam a proximidade dos nossos destinos políticos.

Somos e continuaremos a ser, em um mundo moral e materialmente devastado pela guerra, em um mundo eriçado de ódios, prevenções e suspeitas, o exemplo de quanto pode o império das mesmas origens étnicas, sentimentais e culturais, quando para sua sobrevivência e engrandecimento trabalham os povos e os homens de boa vontade.

(...) A poesia do Brasil brotou das nascentes do vosso Parnaso, ganhou ao sol do Novo Mundo o esplendor tropical das nossas flores, mas nunca perdeu aquele fundo lírico que é a glória e o segredo da inspiração lusitana”.

O Brasil, com certeza, já não vive mais na sombra do mito da colonização, apesar dos reflexos dela.

terça-feira, 11 de setembro de 2007

O silêncio do Cinema em Timor Leste

Por conta da dominação colonial, a produção nacional de cinema em Timor é muito rara e igualmente a relação da população com o mundo dos filmes. Parece que as únicas imagens mesmo feitas são de câmeras amadoras ou de filmagens para reportagens. É o que garante o Dicionário Temático da Lusofonia (Texto Editores). "Das primeiras ressaltam seis mil metros de película rodados pelo poeta e agrônomo Ruy Cinatti quando lá esteve em missão científica. Além desta, no passado, deve a iniciativas estrangeiras do olhar dos repórteres de guerra, no auge das atrocidades perpetradas pelas tropas da indonésia, a recolha de imagens destes tempos de brasa".

"Depois da independência, uma vez mais é a voluntariosa ação de cineastas de vários países que permite a preservação de imagens únicas através de uma série de documentários. Estão neste caso o cineasta brasileiro Paulo Markun (com O nascimento de uma nação), a atriz e realizadora Lucélia Santos (O massacre que o mundo não viu), ou a jornalista Diana Andringa (O sonho do crocodilo) entre outros. A atualidade timorense é temática até em filmes de animação , como o laureado Tomor Loro Sae, do português Vitor Lopes (obra que cruza as lendas fundacionais da ilha do crocodilo com a história dos quinhentos anos de dominação portuguesa e os vinte e seis anos de resistência armada independentista levada a cabo pelos maubere contra ocupação e invasão indonésia).

Em todo o país há apenas uma sala de cinema, sediada na capital. O restante território usufrui de salas improvisadas que são utilizadas de quando em vez, e é servido irregularmente por um serviço de cinema ambulante. A TVTL, operadora de TV do país, só serve a capital, embora cassetes com seus programas e noticiários sejam frequentemente utilizados nessas brigadas ambulantes de cinema. Falta desenvolver esforços para implantação decisiva de uma estrutura que permita que passem a ser os próprios timorenses a reter a história e para o futuro as imagens da construção de sua sociedade".

Fonte: Dicionário Temático da Lusofonia, Texto Editores.

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

Visões de Angola

Em especial da revista Visão: África, 30 anos depois (2005), referente aos países de lingua portuguesa, matéria sobre Angola traz depoimentos de estudiosos e especialistas que vivem a realidade do país. Confira abaixo alguns deles:

“Nós já nascemos globalizados. Os povos africanos falam línguas dos ex-colonizadores, acreditam num Deus que não tem nada a ver com as crenças da região e implementaram sistemas politicos criados muito longe deles”. (Fernando Alvim, Diretor da Trienal de Luanda)

“As lideranças angolanas mostraram-se incapazes de criar um modelo de desenvolvimento. Do que é que elas falam? Modernização acelerada. Seja a que custo for. Mas um desenvolvimento muito rápido significa descontrole, porque não temos infra-estrutura para acompanhar tamanha velocidade. Será com naturalidade que os estrangeiros vão tomar conta do processo, com custos politicos e sociais muito sérios para Angola. Já não espero nada deste país para mim. Será tudo para os meus netos”. (Fernando Pacheco, Fundador da Associação para o Desenvolvimento Rural de Angola).

“Os sucessos reconhecidos no domínio macroeconômico não são suficientes para dar substância à reconciliação nacional enquanto houver fome, miséria e riqueza concentrada em Luanda”. (Alves da Rocha, Universidade Católica de Angola).

“Só em Angola o regime socialista foi desmontado pelos seus principas promotores. Elas continuaram (…) José Eduardo dos Santos pode ser um ditador, mas não o vejo como um sanguinário. O que ele e o MPLA fazem é comprar cabeças quando se tornam incômodas, mantendo esse sistema de fantochada democrática sem o endurecer – uma ‘ditamole’”. (José Eduardo Agualusa, escritor).

domingo, 9 de setembro de 2007

A face exposta da língua portuguesa

Em tempos de reforma ortográfica, vai bem revirar o assunto com alguns trechos da carta da escritora Maria Helena Mira Mateus ao filólogo Celso Cunha em 1989. O registro consta no livro A face exposta da língua portuguesa. Nesta homenagem ao amigo brasileiro, a professora catedrática jubilada da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa critica a ausência de Cunha na questão do Acordo Ortográfico em 1986 e relembra sua opinião sobre este documento que é um verdadeiro osso duro de roer.

"Quando em 1975 cheguei pela primeira vez ao Brasil – e quando me iniciei na experiência surpreendente de atravessar os mares e continuar a ouvir a minha língua – o Celso era o meu único amigo brasileiro.

O mundo da língua portuguesa é vasto e diversificado. Com a diversidade decorrente da distribuição geográfica se entrecruzavam os problemas sócio-lingüísticos, resultantes do uso da língua nos diferentes meios sociais.

Nesse contexto se compreende a importância atribuída por Celso Cunha a um Acordo Ortográfico. A sua ausência na comissão que, em 1986, discutiu no Rio de Janeiro a concretização do Acordo ficou a dever-se ao fato de, nessa ocasião, ainda não ter tomado lugar entre os imortais.

Mais tarde, em debate entre portugueses e brasileiros, confirma: estou plenamente de acordo com a unificação ortográfica. (...) Num espaço geográfico tão grande, não é possível que haja variações de código escrito".

Fonte: Mateus, Maria Helena Mira Mateus (2002) – A Face Exposta da Língua Portuguesa. Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda.

sábado, 8 de setembro de 2007

O nó do enlace nos ritos de passagem

Tudo bem que os ritos de passagem são celebrações que marcam mudanças de status de uma pessoa no seio de sua comunidade. E a união entre duas pessoas é um exemplo disso. A questão que se coloca cada vez mais no seio do efêmero é se esta passagem é só de ida ou tem volta. Alguns rituais de comunidades de língua portuguesa são bem práticos no que diz respeito ao casamento. Segundo o Dicionário Temático da Lusofonia, sobre a cultura de Guiné -Bissau, existem vários meios de se chegar às vias do enlace, ou do nó: casamento por roubo/furto, casamento-promessa, casamento por convite e casamento por decisão. Entre esses, me chamou atenção o papel da mulher em regime matriarcal no casamento por convite/escolha. Ao que consta, as mulheres bijagós convidam e escolhem livremente os seus pares. "A união segue densamente os rituais precursores da procriação", diz o livro. E, em caso de separação, a mulher também decide tudo e se manifesta de maneira bem direta. É simples, se a mulher quer se separar, ela exibe um símbolo por cima da entrada da porta principal e, também com uma demostração simbólica, obriga o homem a retirar-se do lar. Isso significa então o fim da relação. Mas o livro explica que é muito difícil que isso aconteça de fato porque as atitudes dos Bijagós têm como alicerce a relação Deus-homem-mundo. Já em outras áreas de língua portuguesa o modelo mais comum parece ser mesmo o casamento-promessa, que pode levar o rito à condição de mito. E, sem dúvida, o casamento-promessa deve ser o modelo que mais utiliza as potencialidades do idioma.

Revista Claridade, uma voz de Cabo Verde

A revistra Claridade foi um marco da cabo-verdianidade entre 1936 e 37, quando são lançados três números da publicação. Sem programa definido, a idéia do veículo (fundado por Baltasar Lopes, Jorge Barbosa e Manuel Lopes) era se afastar das diretrizes portuguesas e exprimir a voz coletiva do povo cabo-verdiano. Claridade iniciava-se com um testemunho vivo do respeito pelos valores cabo-verdianos, privilegiando a língua crioula, que durante anos de colonialismo foi objeto de repressão. Era assim um desafio à autoridade.

O ideário dos participantes do projeto era o de promover uma renovação com foco nos temas culturais e sociais, na defesa das raízes mais profundas do povo.

Segundo Manuel Lopes, renovar não é criar nova alma, mas procurar reencontrá-la em meio a lugares-comuns que a inércia estratificou e adaptá-las às condições de vida de seu tempo. Arrancar a alma viva do acervo de experiências cristalizadas - eis o que Claridade tentou.

Fonte: Laranjeira, Pires (1995). As literaturas africanas de língua portuguesa. Universidade Aberta, Lisboa.

Festa do PCP

A Festa do Avante, comemoração anual do Partido Comunista Português (PCP), acontece esse fim de semana. O programa cultural desta 31.ª edição traz como tema em destaque a evocação do 90.º aniversário da Revolução Socialista de Outubro.

Direto do túnel do tempo, encontrei um livro de discursos políticos do PCP com recorte de maio a novembro de 1975. No dia 26 de setembro de 75 houve uma reunião no Palácio de Cristal, no Porto, cujo discurso dizia (alguns trechos abaixo):

"Camaradas,

Os fascistas são capazes dos maiores crimes. Os fascistas são gente sem princípios, sem escrúpulos e sem coração. São bestas ferozes capazes de matar os próprios irmãos.

A política da Revolução Portuguesa não pode ser de submissão e entrega ao imperialismo estrangeiro. O novo Portugal democrático que nos estamos esforçando para construir só o poderá ser com uma firme e corajosa política de indipendência nacional.

No Norte há muitos fascistas, há fortes posições reacionárias, há zonas e localizadas onde a reação instaurou uma situação antidemocrática, em que o povo é explorado, oprimido, enganado e humilhado, coagido pelos caciques locais, seus exploradores.

Mas no Norte há também o proletariado industrial revolucionário de gloriosas tradições, há os pescadores, há a população do Porto.

O povo vencerá. Salvaguardaremos as liberdades, construiremos em Portugal um regime democrático e caminharemos para o socialismo, até pormos definitivamente fim na nossa terra à exploração do homem pelo homem.


Viva a Revolução Portuguesa!
Viva a Unidade das Forças Revolucionárias!
Viva o Partido Comunista Português!"


FONTE: Cunhal, Álvaro (1976). Documentos Políticos do Partido Comunista Português, A crise Político-Militar. Edições Avante! Lisboa.