segunda-feira, 10 de setembro de 2007

Visões de Angola

Em especial da revista Visão: África, 30 anos depois (2005), referente aos países de lingua portuguesa, matéria sobre Angola traz depoimentos de estudiosos e especialistas que vivem a realidade do país. Confira abaixo alguns deles:

“Nós já nascemos globalizados. Os povos africanos falam línguas dos ex-colonizadores, acreditam num Deus que não tem nada a ver com as crenças da região e implementaram sistemas politicos criados muito longe deles”. (Fernando Alvim, Diretor da Trienal de Luanda)

“As lideranças angolanas mostraram-se incapazes de criar um modelo de desenvolvimento. Do que é que elas falam? Modernização acelerada. Seja a que custo for. Mas um desenvolvimento muito rápido significa descontrole, porque não temos infra-estrutura para acompanhar tamanha velocidade. Será com naturalidade que os estrangeiros vão tomar conta do processo, com custos politicos e sociais muito sérios para Angola. Já não espero nada deste país para mim. Será tudo para os meus netos”. (Fernando Pacheco, Fundador da Associação para o Desenvolvimento Rural de Angola).

“Os sucessos reconhecidos no domínio macroeconômico não são suficientes para dar substância à reconciliação nacional enquanto houver fome, miséria e riqueza concentrada em Luanda”. (Alves da Rocha, Universidade Católica de Angola).

“Só em Angola o regime socialista foi desmontado pelos seus principas promotores. Elas continuaram (…) José Eduardo dos Santos pode ser um ditador, mas não o vejo como um sanguinário. O que ele e o MPLA fazem é comprar cabeças quando se tornam incômodas, mantendo esse sistema de fantochada democrática sem o endurecer – uma ‘ditamole’”. (José Eduardo Agualusa, escritor).

domingo, 9 de setembro de 2007

A face exposta da língua portuguesa

Em tempos de reforma ortográfica, vai bem revirar o assunto com alguns trechos da carta da escritora Maria Helena Mira Mateus ao filólogo Celso Cunha em 1989. O registro consta no livro A face exposta da língua portuguesa. Nesta homenagem ao amigo brasileiro, a professora catedrática jubilada da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa critica a ausência de Cunha na questão do Acordo Ortográfico em 1986 e relembra sua opinião sobre este documento que é um verdadeiro osso duro de roer.

"Quando em 1975 cheguei pela primeira vez ao Brasil – e quando me iniciei na experiência surpreendente de atravessar os mares e continuar a ouvir a minha língua – o Celso era o meu único amigo brasileiro.

O mundo da língua portuguesa é vasto e diversificado. Com a diversidade decorrente da distribuição geográfica se entrecruzavam os problemas sócio-lingüísticos, resultantes do uso da língua nos diferentes meios sociais.

Nesse contexto se compreende a importância atribuída por Celso Cunha a um Acordo Ortográfico. A sua ausência na comissão que, em 1986, discutiu no Rio de Janeiro a concretização do Acordo ficou a dever-se ao fato de, nessa ocasião, ainda não ter tomado lugar entre os imortais.

Mais tarde, em debate entre portugueses e brasileiros, confirma: estou plenamente de acordo com a unificação ortográfica. (...) Num espaço geográfico tão grande, não é possível que haja variações de código escrito".

Fonte: Mateus, Maria Helena Mira Mateus (2002) – A Face Exposta da Língua Portuguesa. Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda.

sábado, 8 de setembro de 2007

O nó do enlace nos ritos de passagem

Tudo bem que os ritos de passagem são celebrações que marcam mudanças de status de uma pessoa no seio de sua comunidade. E a união entre duas pessoas é um exemplo disso. A questão que se coloca cada vez mais no seio do efêmero é se esta passagem é só de ida ou tem volta. Alguns rituais de comunidades de língua portuguesa são bem práticos no que diz respeito ao casamento. Segundo o Dicionário Temático da Lusofonia, sobre a cultura de Guiné -Bissau, existem vários meios de se chegar às vias do enlace, ou do nó: casamento por roubo/furto, casamento-promessa, casamento por convite e casamento por decisão. Entre esses, me chamou atenção o papel da mulher em regime matriarcal no casamento por convite/escolha. Ao que consta, as mulheres bijagós convidam e escolhem livremente os seus pares. "A união segue densamente os rituais precursores da procriação", diz o livro. E, em caso de separação, a mulher também decide tudo e se manifesta de maneira bem direta. É simples, se a mulher quer se separar, ela exibe um símbolo por cima da entrada da porta principal e, também com uma demostração simbólica, obriga o homem a retirar-se do lar. Isso significa então o fim da relação. Mas o livro explica que é muito difícil que isso aconteça de fato porque as atitudes dos Bijagós têm como alicerce a relação Deus-homem-mundo. Já em outras áreas de língua portuguesa o modelo mais comum parece ser mesmo o casamento-promessa, que pode levar o rito à condição de mito. E, sem dúvida, o casamento-promessa deve ser o modelo que mais utiliza as potencialidades do idioma.

Revista Claridade, uma voz de Cabo Verde

A revistra Claridade foi um marco da cabo-verdianidade entre 1936 e 37, quando são lançados três números da publicação. Sem programa definido, a idéia do veículo (fundado por Baltasar Lopes, Jorge Barbosa e Manuel Lopes) era se afastar das diretrizes portuguesas e exprimir a voz coletiva do povo cabo-verdiano. Claridade iniciava-se com um testemunho vivo do respeito pelos valores cabo-verdianos, privilegiando a língua crioula, que durante anos de colonialismo foi objeto de repressão. Era assim um desafio à autoridade.

O ideário dos participantes do projeto era o de promover uma renovação com foco nos temas culturais e sociais, na defesa das raízes mais profundas do povo.

Segundo Manuel Lopes, renovar não é criar nova alma, mas procurar reencontrá-la em meio a lugares-comuns que a inércia estratificou e adaptá-las às condições de vida de seu tempo. Arrancar a alma viva do acervo de experiências cristalizadas - eis o que Claridade tentou.

Fonte: Laranjeira, Pires (1995). As literaturas africanas de língua portuguesa. Universidade Aberta, Lisboa.

Festa do PCP

A Festa do Avante, comemoração anual do Partido Comunista Português (PCP), acontece esse fim de semana. O programa cultural desta 31.ª edição traz como tema em destaque a evocação do 90.º aniversário da Revolução Socialista de Outubro.

Direto do túnel do tempo, encontrei um livro de discursos políticos do PCP com recorte de maio a novembro de 1975. No dia 26 de setembro de 75 houve uma reunião no Palácio de Cristal, no Porto, cujo discurso dizia (alguns trechos abaixo):

"Camaradas,

Os fascistas são capazes dos maiores crimes. Os fascistas são gente sem princípios, sem escrúpulos e sem coração. São bestas ferozes capazes de matar os próprios irmãos.

A política da Revolução Portuguesa não pode ser de submissão e entrega ao imperialismo estrangeiro. O novo Portugal democrático que nos estamos esforçando para construir só o poderá ser com uma firme e corajosa política de indipendência nacional.

No Norte há muitos fascistas, há fortes posições reacionárias, há zonas e localizadas onde a reação instaurou uma situação antidemocrática, em que o povo é explorado, oprimido, enganado e humilhado, coagido pelos caciques locais, seus exploradores.

Mas no Norte há também o proletariado industrial revolucionário de gloriosas tradições, há os pescadores, há a população do Porto.

O povo vencerá. Salvaguardaremos as liberdades, construiremos em Portugal um regime democrático e caminharemos para o socialismo, até pormos definitivamente fim na nossa terra à exploração do homem pelo homem.


Viva a Revolução Portuguesa!
Viva a Unidade das Forças Revolucionárias!
Viva o Partido Comunista Português!"


FONTE: Cunhal, Álvaro (1976). Documentos Políticos do Partido Comunista Português, A crise Político-Militar. Edições Avante! Lisboa.

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

A sabedoria sexual do Kotá Kadéla

Pelo que entendi lendo texto sobre manifestações culturais e ritos em São Tomé e Príncipe (STP), por lá o pessoal vai direto ao ponto em termos de orientação sexual. A conversa é curta e conta com a sabedoria de quem já tem estrada. Não deve ser em vão um provérbio que me disseram que quando morre um velho em África se enterra uma biblioteca.

No Kotá Kadéla, ritual que quer dizer saracotear as ancas, a avó, preocupada com o futuro da neta quando esta passar a viver com um homem, no intuito de fazê-la conquistar seu carinho, ensina-lhe da seguinte forma o Kotá Kadéla:

Estende uma esteira no quintal, onde ambas se deitam (avó e neta). Então a avó simula o ato sexual perante a neta, saracoteando as ancas de várias maneiras, pedindo depois à adolescente que a imite. Segundo a tradição, a jovem, ao ir viver com seu homem, tem de se preparar de modo a conquistar seu amor e carinho.

Bom, pelo visto, a consultora amorosa Nelma Penteado morreria de fome em STP.

Fonte: Dicionário Temático da Lusofonia, Texto Editores.

Gira il mondo gira

Achei interessante esta mensagem que encontrei numa
visita ao museu Almeida Moreira, em Viseu (Quem quer não pode, quem pode não quer, quem faz não sabe, quem sabe não faz....e assim vai o mundo muito mal).