sábado, 8 de setembro de 2007

Revista Claridade, uma voz de Cabo Verde

A revistra Claridade foi um marco da cabo-verdianidade entre 1936 e 37, quando são lançados três números da publicação. Sem programa definido, a idéia do veículo (fundado por Baltasar Lopes, Jorge Barbosa e Manuel Lopes) era se afastar das diretrizes portuguesas e exprimir a voz coletiva do povo cabo-verdiano. Claridade iniciava-se com um testemunho vivo do respeito pelos valores cabo-verdianos, privilegiando a língua crioula, que durante anos de colonialismo foi objeto de repressão. Era assim um desafio à autoridade.

O ideário dos participantes do projeto era o de promover uma renovação com foco nos temas culturais e sociais, na defesa das raízes mais profundas do povo.

Segundo Manuel Lopes, renovar não é criar nova alma, mas procurar reencontrá-la em meio a lugares-comuns que a inércia estratificou e adaptá-las às condições de vida de seu tempo. Arrancar a alma viva do acervo de experiências cristalizadas - eis o que Claridade tentou.

Fonte: Laranjeira, Pires (1995). As literaturas africanas de língua portuguesa. Universidade Aberta, Lisboa.

Festa do PCP

A Festa do Avante, comemoração anual do Partido Comunista Português (PCP), acontece esse fim de semana. O programa cultural desta 31.ª edição traz como tema em destaque a evocação do 90.º aniversário da Revolução Socialista de Outubro.

Direto do túnel do tempo, encontrei um livro de discursos políticos do PCP com recorte de maio a novembro de 1975. No dia 26 de setembro de 75 houve uma reunião no Palácio de Cristal, no Porto, cujo discurso dizia (alguns trechos abaixo):

"Camaradas,

Os fascistas são capazes dos maiores crimes. Os fascistas são gente sem princípios, sem escrúpulos e sem coração. São bestas ferozes capazes de matar os próprios irmãos.

A política da Revolução Portuguesa não pode ser de submissão e entrega ao imperialismo estrangeiro. O novo Portugal democrático que nos estamos esforçando para construir só o poderá ser com uma firme e corajosa política de indipendência nacional.

No Norte há muitos fascistas, há fortes posições reacionárias, há zonas e localizadas onde a reação instaurou uma situação antidemocrática, em que o povo é explorado, oprimido, enganado e humilhado, coagido pelos caciques locais, seus exploradores.

Mas no Norte há também o proletariado industrial revolucionário de gloriosas tradições, há os pescadores, há a população do Porto.

O povo vencerá. Salvaguardaremos as liberdades, construiremos em Portugal um regime democrático e caminharemos para o socialismo, até pormos definitivamente fim na nossa terra à exploração do homem pelo homem.


Viva a Revolução Portuguesa!
Viva a Unidade das Forças Revolucionárias!
Viva o Partido Comunista Português!"


FONTE: Cunhal, Álvaro (1976). Documentos Políticos do Partido Comunista Português, A crise Político-Militar. Edições Avante! Lisboa.

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

A sabedoria sexual do Kotá Kadéla

Pelo que entendi lendo texto sobre manifestações culturais e ritos em São Tomé e Príncipe (STP), por lá o pessoal vai direto ao ponto em termos de orientação sexual. A conversa é curta e conta com a sabedoria de quem já tem estrada. Não deve ser em vão um provérbio que me disseram que quando morre um velho em África se enterra uma biblioteca.

No Kotá Kadéla, ritual que quer dizer saracotear as ancas, a avó, preocupada com o futuro da neta quando esta passar a viver com um homem, no intuito de fazê-la conquistar seu carinho, ensina-lhe da seguinte forma o Kotá Kadéla:

Estende uma esteira no quintal, onde ambas se deitam (avó e neta). Então a avó simula o ato sexual perante a neta, saracoteando as ancas de várias maneiras, pedindo depois à adolescente que a imite. Segundo a tradição, a jovem, ao ir viver com seu homem, tem de se preparar de modo a conquistar seu amor e carinho.

Bom, pelo visto, a consultora amorosa Nelma Penteado morreria de fome em STP.

Fonte: Dicionário Temático da Lusofonia, Texto Editores.

Gira il mondo gira

Achei interessante esta mensagem que encontrei numa
visita ao museu Almeida Moreira, em Viseu (Quem quer não pode, quem pode não quer, quem faz não sabe, quem sabe não faz....e assim vai o mundo muito mal).

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

Genética SuperStar



A Família SuperStar é uma espécie de Ídolos que a SIC lançou no último domingo. A idéia não é só descobrir um talento nacional, mas um verdadeiro intento genético de encontrar a família mais artística de Portugal. A maioria dos participantes cantou músicas em inglês, infelizmente. Poucos cantaram canções lusitanas, ninguém sequer arriscou um fado. E, com tanto repertório de música boa brasileira, aparece uma alma perdida cantando "Garçon" (o figura do vídeo).

Moçambique: entre a Commonwealth e a CPLP

Dentre os países de língua portuguesa em África, Moçambique tem se mostrado forte nos preceitos globais de diversificação de parcerias e participação em comunidades, assim como na aposta bilateral. Está na União Africana (UA), e na condicionante de ex-colônia de Portugal se insere na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). Participa ainda da Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral (SADC) e envolta pelas posses do império britânico, faz valer sua posição geopolítica se colocando nos meandros da Commonwealth.

De todas essas inserções, chama atenção a presença do país na comunidade britânica, único de língua portuguesa. O Secretariado da Commonwealth é uma associação voluntária de 53 Estados soberanos. Todos os Estados-membros, com exceção de Moçambique, estiveram direta ou indiretamente sob o domínio britânico ou mantiveram vínculos administrativos com outro país da Commonwealth.

O tema foi um trabalho que elaborei para uma disciplina e, no intuito de conhecer melhor a realidade presencial, aproveitei para entrevistar (por e-mail) o diretor do Jornal O Observador, de Moçambique, Jorge Eurico, jornalista que escreve para a publicação Notícias Lusófonas. Conhecedor da Lusofonia, o especialista mostra uma Moçambique inserida no jogo internacional e expressa, em verbo afiado, sua indignação com a CPLP.

DirectoLuso: Para além de membro da União Africana (UA) e da Commonwealth, Moçambique participa da Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral - SADC - e da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. Essa diversidade de inserção internacional beneficia e prejudica o país em que aspectos?

J.E. : A inserção internacional de Moçambique na Commonwealth, União Africana, CPLP e Comunidade dos Países de Língua Portuguesa em nada prejudica o País; pelo contrário, sendo Moçambique um País, esta é uma forma de procurar tirar dividendos de todas estas instituições para colmatar a pobreza absoluta em que se encontra e mostrar que, apesar de pobre, também tem uma palavra a dizer. Moçambique tem tirado bastante proveito e absorvido grandes e boas experiências dos seus países vizinhos, todos de expressão inglesa.

DirectoLuso: Para CPLP e Commonwealth, nomeadamente, quais os ganhos e perdas desse triângulo de relacionamento?

J.E. : A CPLP na prática não existe, existe apenas na cabeça de uns quantos. O mesmo não se pode dizer da Commonwealth que se faz sentir com projectos políticos, culturais, etc, etc nos países de que são membros.

DirectoLuso: Moçambique encontra na Commonwealth o apelo financeiro que falta na CPLP?

J.E. : Não tenho informações precisas, mas penso que sim. Um dos países de expressão portuguesa com quem Moçambique mantém laços muitos estreitos é, contrariamente ao que possa parecer, o Brasil. Não se passa o mesmo em relação aos País Africanos de Língua Portuguesa (PALOP) e Portugal.

DirectoLuso: Como a opinião pública enxerga Moçambique na CPLP e na Commonwealth?

J.E. : Como uma forma de ir buscar ajudas nas duas instituições. Mas já se viu que, até aqui, a CPLP nada tem para dar a nenhum dos seus membros. Por isso Moaçambique está mais virada para a Commonwealth.

DirectoLuso: O que mudou nas oportunidades de negócio com a entrada de Moçambique na Commonwealth e na CPLP?

J.E. : Quase nada. Apesar de ter como limitrofe países de expressão inglesa, Moçambique ainda conserva os hábitos e costumes, maus diga-se de passagem, do seu colonizador, o povo português. Ainda não se libertou disso. Pensa pouco e pequeno. É, tal como o português médio, manhoso. Aúnica diferença entre os moçambicanos e os portugueses é que os primeiros não gostam de trabalhar, passo que os segundos, os cafres do mar, são escravos do trabalho.

DirectoLuso: Entre 2016 a 2018 existe a previsão de criação de uma moeda única e a União Monetária da SADC como desenvolvimento do processo de integração regional. O que isso representa pra Moçambique e como fica a partir deste fato, concretizado, a relação com as duas comunidades? A diversificação de parcerias de Moçambique seria crucial nesse momento?

J.E. : A criação de moeda única é um projecto a longo prazo, até lá muita coisa poderá acontecer. Moçambique, sendo um País pobre, continuará sempre a jogar em três tabuleiros (entenda-se estar com a SADC, CPLP e a Commonwealth). E Moçambique estará com quem lhe poderá ajudar mais.

DirectoLuso: Sendo um país que guarda uma história de inspiração socialista, que resquícios de sistema esbarram com os conceitos de livre comércio?

J.E. : Há uma excessiva burocracia e, embora de forma disfarçada, quase que não se faz nada sem o assentimento do partido no poder, a FRELIMO.

terça-feira, 4 de setembro de 2007

Cronologia histórica de Cabo Verde

1444 – O português Dinis Dias, escudeiro de D. João, é o primeiro europeu a avistar o cabo da costa Africana a que chama Verde, devido ao seu denso arvoredo.

1456
– As ilhas de Santiago, Boavista, Maio e Sal, do arquipélago depois chamado de Cabo Verde (por ficar defronte ao dito Cabo), todas elas desabitadas, são avistadas pela primeira vez pelo veneziano Alvise de Ca da Mosto (Cadamosto) navegando ao serviço de Portugal, e ambos descobrem as restantes ilhas do arquipélago, igualmente desabitadas.

1460
– Diogo Afonso, escudeiro de D. Fernando, encontra o genovês Antônio de Nolin as águas africanas navegando ao serviço de Portugal.

1463
– Começa o povoamento das ilhas. Os primeiros capitães-donatários são Antônio de Noli e Diogo Afonso. Para os trabalhos mais pesados são levados escravos da costa Africana.

1468
– O mapa de Grazioso Benincasa já faz menção às ilhas descobertas.

1510
- As principais ilhas são arrendadas por Antônio Rodrigues Mascarenhas. Nos anos seguintes são introduzidos o milho e o coqueiro, base da alimentação local. O arquipélago torna-se base de tráfico de escravos para Europa e América.

1550
– É fundada a cidade da Praia. Surgem ataques de piratas franceses.

1586
– O corsário ingles Sir Francis Drake saqueia o arquipélago, mandado por Isabel I.

1592
– Os portugueses criam o cargo de governador de Cabo Verde.

1747
– Há registro da primeira das grandes secas que afetam periodicamente o local.

1810
– Baleeiros da Nova Inglaterra (EUA) recrutam pessoal das ilhas Brava e do Fogo.

1830
– Começa imigração de cabo-verdianos para Massachussetts e Rode Island, onde trabalham na pesca da baleia.

1876
– Fim do tráfico de escravos, arquipélago mergulhado em crise econômica.

1879
– A Guiné deixa de ser administrada a partir de Cabo Verde.

1890
– CV torna-se base de reabastecimento de carvão, água e mantimentos.

1926
– Instaurada ditadura em Portugal.

1951
– CV deixa de ser colônia e passa a ser privíncia ultramarina.
1956 – Amílcar Cabral funda o Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC).

1963
– Embora não haja guerra de libertação, muitos cabo-veridanos passam a combater nas matas e bolanhas de Guiné-Bissau, integrados na guerrilha do PAIGC.

1973
– Amílcar é assassinado por agentes da ditadura portuguesa.

1974
– Portugal reconquista a democracia e abrem-se negociações para independência de CV. Aristides Pereira é o presidente.

1975
– A 5 de julho CV torna-se independente. Nos anos seguintes, muitos cabo-veidanos imigraram para Portugal e para Holanda.

1981
– O PAIGC passa a ser PAICV (Partido Africano para a Independência de Cabo Verde).

1983
– CV normaliza relações com Guiné.

1986
– Aristides Pereira é reeleito presidente.

1991
– Nas primeiras eleições multipartidárias, o PAIGC perde maioria para MPD (Movimento para o Partido da Democracia). O independente Antônio Mascarenhas Monteiro (próximo do MPD) é eleito presidente.

1995
– O MPD volta a ganhar as legislativas.

1996
– Antônio Monteiro é reeleito presidente sem oposição. Uma grande seca afeta o país, que tem de importar a maior parte dos alimentos.

2001
– O PAIGC recupera a maioria parlamentar. Pedro Pires (PAIGC) é eleito presidente.

FONTE: REVISTA VISÃO, ÁFRICA 30 ANOS DEPOIS.