domingo, 2 de setembro de 2007

África, Portugal, Indonésia e China no borogodó da comida timorense

De acordo com o Dicionário Temático da Lusofonia, a gastronomia de Timor Leste é hoje resultado de variedades culturais autóctones e presenças estrangeiras. É comum ver, no entanto, crescente proliferação - mais ao longo da costa - de barracas de comida rápida. A influência religiosa e a tendência patriarcal deixaram traços vincados, evidentes nas orações antes das refeições e nas restritas regras de movimentação para a mesa: homens são invariavelmente os primeiros. Os banquetes são comuns e muitos timorenses chegam a endividar-se para não fazer feio em cerimônias importantes, como casamentos, nascimentos, lutos ou deslutos, enchendo longas mesas preparadas durantes meses por familiares e amigos.

O maior tratado de gastronomia timorense foi publicado em 1998 por Natália Carrascalão, apontando quer os sinais da influência portuguesa e, parcialmente, indonésia, quer as tendências muito próprias de Timor, marcadas pelos seus regionalismos e pelas suas diferentes etnias e culturas.

A comida timorense é hoje preparada com toques de África, Portugal, Indonésia, China - influências marcantes que permitem variar dos peixes secos da vizinha Indonésia e dos condimentos dos pratos africanos, para os mais rústicos traços portugueses.

Arroz, coco, papaia, amendoim e muito piri-píri (pimenta) são ingredientes essenciais para quase todos os pratos. Experiências que vão desde o saboko de camarão - com leite de coco e tamarindo a dar um toque especial com marisco grelhado - ao sassate de cabrito, receita em que é evidente o recurso da soja, tão comum na cozinha chinesa. Ou que passam pelo batarda'an, prato idêntico à cachupa africana.

Cabrito, peixe seco, galinha e porco são regulares, ainda que o uso das folhas de papaia, o milho, a mandioca, os legumes e o arroz sejam marca especial da comida timorense. A banana, o ananás e a papaia evidenciam-se nas sobremesas, com a influência dos coloridos doces indonésios.

Fonte: Cristóvão, F. (dir. e coord), Amorim, M.A., Marques, M..L.G., Moita, S.B. et alii (2006). Dicionário Temático de Lusofonia. Lisboa, Associação de Cultura Lusófona, Texto Editores.

sábado, 1 de setembro de 2007

Feira em Vilar de Perdizes é destino do desconhecido

O congresso de Medicina Popular em Vilar de Perdizes (Trás-os-Montes) deu origem a uma feira que desperta o interesse do público que vai em busca do oculto. O medo do desconhecido, a vontade de estar antecipado ao tempo mobiliza curiosos e místicos ao local para consultarem videntes, médiuns, astrólogos e bruxos.

Mais interessante é a cobertura jornalística. Em REPORTAGEM DA SIC a repórter tenta entrevistar uma menina que acaba de sair de uma consulta a uma vidente. Infelizmente, o diálogo não conseguiu acrescentar muito:

Repórter: O que as cartas te disseram?
Menina: Não posso dizer, senão já não era só pra mim.

Repórter: Foi bom?
Menina: Há coisas boas e coisas más, não é? Na vida não é sempre tudo bom.

Repórter: Achas que acertou em alguma coisa?
Menina: Ah, isso sim, acertou.

No meio da matéria, cada vez mais pitoresca, aparece uma placa dizendo "Licor Levanta o pau", e o contato da pessoa que vende. E terminando a repórter faz um brinde com o Chupito do amor, bebida que tem como indicação tornar as pessoas mais românticas.

Receitinha pra animar:
(fonte: http://culinaria.weblog.com.pt/arquivo/111508.html)

LICOR DE MENTA - LEVANTA O PAU:

60 folhas de menta
algumas sementes de anis
1 litro de aguardente
1 litro de água
1 kg de açúcar

PREPARAÇÃO:
Devem-se deixar em maceração todos ingredientes aproximadamente 45 dias, agitando bem de 5 em 5 dias. Depois deve-se coar todo o preparado e estará pronto a ser bebido.

Para ti Maria (Xutos e Pontapés )

De Bragança a Lisboa são nove horas de distância
queria ter uma avião para lá ir mais a miúda
Dei cabo da tolerância
rebentei com três radares
só para te ter mais perto
só para tu me dares
E saiu agora, e vou correndo
e vou-me embora, e vou correndo
já não demora, e vou correndo para ti
Maria, Maria

Outra vez vim de Lisboa
num comboio azarado
nem máquina tinha ainda
e já estava atrasado
Dei comigo agarrado
ao porteiro mais pequeno
e por-te a sentir a esperar e bolando-te no feno

E saiu agora, e vou correndo
e vou-me embora, e vou correndo
já não demora, e vou correndo para ti
Maria, Maria

Seja de noite ou de dia
trago sempre na lembrança
a cor da tua alegria
o cheiro da tua trança

De Bragança a Lisboa são nove horas de distância
queria ter um avião para lá ir mais a miúda
E saiu agora, e vou correndo
e não demora, e vou correndo
e vou-me embora, e vou correndo para ti
Maria, Maria
Maria, Maria

sexta-feira, 31 de agosto de 2007

Sebos e alfarrabistas

No Brasil sebos, em Portugal alfarrabistas*. Passei por uma feira de usados e lá encontrei uma promoção muito boa: pegar 10 livros e pagar o correspondente a mais ou menos 13 reais. Garimpando, garimpando, encontrei um livro de poemas de Antônio Cícero, nascido no Rio em 45, gravado por alguns famosos. Sua letra Inverno (aquela...no dia em que fui mais feliz eu vi um avião...) é perfeita no trecho "que um dia o céu uniu-se à terra num instante por nós dois" (no yang masculino e yin feminino, da chuva que vem do céu pra fecundar a terra etc.). Escolhi o texto que dá nome ao livro pra deixar aqui:

Guardar
Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la. Em cofre não se guarda coisa alguma. Em cofre perde-se a coisa à vista.
Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.
Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela, isto é, estar por ela ou ser por ela.
Por isso melhor se guarda o vôo de um pássaro
Do que pássaros sem vôos.
Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica, por isso se declara e declama um poema:
para guardá-lo:
Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:
Guarde o que quer que guarda um poema:
Por isso o lance do poema:
Por guardar-se o que se quer guardar.

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*A palavra alfarrábio significaria "livro velho e de leitura enfadonha, cartapácio, e daqui alfarrabista, "coleccionador ou vendedor de alfarrábios, o que manuseia alfarrábios, caturra" (Dicionário da Língua Portuguesa, especialmente dos períodos medieval e clássico, Rio de Janeiro, 1º volume - único publicado -, 1950-1954).

terça-feira, 28 de agosto de 2007

Português pra Caracas

Segundo estimativas oficiais, aproximadamente 700 mil portugueses estão inscritos nos consulados na Venezuela. Na verdade, a comunidade acredita que sejam 1,5 milhões, incluindo os luso-descendentes. Quase todos os dias no JN é possível encontrar uma notícia sobre o H. Chávez e, este ano, o número de sequestros de portugueses (15, sendo oito somente em agosto) teve ampla divulgação na imprensa nacional enquanto caso diplomático.

Muitos são os recortes dessa imigração: o país abriga mais de 50 grupos folclóricos portugueses, por exemplo, tendo dado origem ao "Festival de Folclore Portugués", já na década de 80. O site www.correiodevenezuela.com/, escrito em português, traz depoimentos de imigrantes que mostram os componentes dessa realidade de ir e vir que muitas vezes escapa ao livre arbítrio e vira tarefa do destino. Um dos mais emocionantes, o relato de uma senhora, conta como uma vida dificil na Madeira moveu seus pais para a AL. Seu maior desejo? Claro, voltar para sua terra.

"Não vou a Portugal há 50 anos. Não sei como estará o país, nem que terão feito. Sinto falta da liberdade de poder caminhar tranquila pelas ruas, coisa que na Venezuela não se pode fazer. Passei muitos momentos de tensão na minha vida, mas foram superados com o passar do tempo. Agora estou tranquila na minha casa e feliz por ver os meus filhos e os meus netos. Nunca me arrependi de esfregar marmitas, de limpar casas e coser roupa para outras pessoas, porque sempre fui uma mulher de trabalho. Mas já com a minha avançada idade, o único que desejo é descansar e poder ir a Portugal pela última vez".

Leia o depoimento inteiro




segunda-feira, 13 de agosto de 2007

Conferência debate futuro de São Tomé e Príncipe

Todo mundo naquele evento se conhecia, público, palestrantes, e até a senhora que colocava água nas mesas. A ocasião da conferência marcou o aniversário de São Tomé e Príncipe. Depois da parte técnica, provei da gastronomia da terra e conheci muitas histórias. Antes da refeição, no entanto, foi levantada a bandeira de STP e todos cantaram emocionados o hino. Soube até que STP é apelidado como Somos Todos Parentes. De fato, pareceu mesmo. Um dia para lembrar.

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Conferência debate futuro de São Tomé e Príncipe
STP completa 32 anos de independência

A pergunta veio da platéia durante a conferência "São Tomé e Príncipe - Perspectivas para o futuro", realizada em Lisboa, no último dia 12 de julho, data em que o país completa 32 anos: “será que o petróleo vai trazer felicidade para São Tomé se os exemplos de exploração no mundo provam o contrário?”. Enquanto a questão faz o território das duas ilhas saltar do mapa, um cenário de incertezas se expande passando pela construção do Estado-nação e o próprio desenho de uma administração pública. Pertencente à Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), o país “necessita institucionalizar sobretudo um quadro de diálogo social”, como avaliou o palestrante do evento, o governador do Banco Central de STP, Arlindo Afonso Carvalho.

- Temos que ter a consciência de que precisamos de um novo modelo de desenvolvimento, aliado à posição geoestratégica como fornecedores de serviços num mundo entre África – América – Ásia. E por que não entre África e Europa? –, afirmou Carvalho. Sobre a exploração petrolífera, o especialista atentou para a proteção do mar, e as necessidades de avaliar os impactos do processo e de acumular recursos em função da atividade.

A conferência foi promovida pela Associação da Comunidade Santomense (Acosp), na Universidade Lusófona, e teve ainda apresentação de obras do escritor Padre Sacramento Neto, além da presença da embaixadora são-tomense em Portugal, Alda Melo. Em debate, o público levantou outras questões cruciais: a necessidade de apoio aos agricultores, investimento em educação com a formação de professores primários, integração entre os programas dos partidos políticos, dar dimensão social ao volume de investimento, criar oportunidades de inserção, afirmar o país no espaço lusófono e, entre outras, resolver o mal crônico da corrupção.


quinta-feira, 9 de agosto de 2007

O 8 de dezembro em Florbela Espanca

A vida da poetisa alentejana Florbela Espanca parece ter tido um início e um fim já planejados, quem sabe sacramentados a 8 de dezembro, dia de Nossa Senhora da Conceição, padroeira de Portugal. Com uma trajetória curiosa, a escritora nasceu em 8 de dezembro (1913) e se suicidou em 8 de dezembro (1930). Foi batizada na igreja de N.S. da Conceição, aos 8 anos adotou o nome "da Conceição" e lecionou no Colégio N.S. da Conceição, em Évora. Em sua última noite, escreveu o soneto À morte e um mês antes de partir confessou a uma amiga que se suicidaria no dia de seu aniversário como um presente para si própria. O soneto é uma conversa da poetisa com a morte, personificada. Morte que teria dedos macios de veludo para quem Florbela pede que feche seus olhos, pois já tinham visto tudo.

À morte

Morte, minha Senhora Dona Morte,
Tão bom que deve ser o teu abraço!
Lânguido e doce como um doce laço
E como uma raiz, sereno e forte.

Não há mal que não sare ou não conforte
Tua mão que nos guia passo a passo,
Em ti, dentro de ti, no teu regaço
Não há triste destino nem má sorte.

Dona Morte dos dedos de veludo,
Fecha-me os olhos que já viram tudo!
Prende-me as asas que voaram tanto!

Vim de Moirama, sou filha de rei,
Má fada me encantou e aqui fiquei
À tua espera, ...quebra-me o encanto!

Guedes, Rui (2001). Florbela Espanca: poesia completa. Publicação Dom Quixote, 2 ed., Lisboa.