terça-feira, 28 de agosto de 2007

Português pra Caracas

Segundo estimativas oficiais, aproximadamente 700 mil portugueses estão inscritos nos consulados na Venezuela. Na verdade, a comunidade acredita que sejam 1,5 milhões, incluindo os luso-descendentes. Quase todos os dias no JN é possível encontrar uma notícia sobre o H. Chávez e, este ano, o número de sequestros de portugueses (15, sendo oito somente em agosto) teve ampla divulgação na imprensa nacional enquanto caso diplomático.

Muitos são os recortes dessa imigração: o país abriga mais de 50 grupos folclóricos portugueses, por exemplo, tendo dado origem ao "Festival de Folclore Portugués", já na década de 80. O site www.correiodevenezuela.com/, escrito em português, traz depoimentos de imigrantes que mostram os componentes dessa realidade de ir e vir que muitas vezes escapa ao livre arbítrio e vira tarefa do destino. Um dos mais emocionantes, o relato de uma senhora, conta como uma vida dificil na Madeira moveu seus pais para a AL. Seu maior desejo? Claro, voltar para sua terra.

"Não vou a Portugal há 50 anos. Não sei como estará o país, nem que terão feito. Sinto falta da liberdade de poder caminhar tranquila pelas ruas, coisa que na Venezuela não se pode fazer. Passei muitos momentos de tensão na minha vida, mas foram superados com o passar do tempo. Agora estou tranquila na minha casa e feliz por ver os meus filhos e os meus netos. Nunca me arrependi de esfregar marmitas, de limpar casas e coser roupa para outras pessoas, porque sempre fui uma mulher de trabalho. Mas já com a minha avançada idade, o único que desejo é descansar e poder ir a Portugal pela última vez".

Leia o depoimento inteiro




segunda-feira, 13 de agosto de 2007

Conferência debate futuro de São Tomé e Príncipe

Todo mundo naquele evento se conhecia, público, palestrantes, e até a senhora que colocava água nas mesas. A ocasião da conferência marcou o aniversário de São Tomé e Príncipe. Depois da parte técnica, provei da gastronomia da terra e conheci muitas histórias. Antes da refeição, no entanto, foi levantada a bandeira de STP e todos cantaram emocionados o hino. Soube até que STP é apelidado como Somos Todos Parentes. De fato, pareceu mesmo. Um dia para lembrar.

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Conferência debate futuro de São Tomé e Príncipe
STP completa 32 anos de independência

A pergunta veio da platéia durante a conferência "São Tomé e Príncipe - Perspectivas para o futuro", realizada em Lisboa, no último dia 12 de julho, data em que o país completa 32 anos: “será que o petróleo vai trazer felicidade para São Tomé se os exemplos de exploração no mundo provam o contrário?”. Enquanto a questão faz o território das duas ilhas saltar do mapa, um cenário de incertezas se expande passando pela construção do Estado-nação e o próprio desenho de uma administração pública. Pertencente à Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), o país “necessita institucionalizar sobretudo um quadro de diálogo social”, como avaliou o palestrante do evento, o governador do Banco Central de STP, Arlindo Afonso Carvalho.

- Temos que ter a consciência de que precisamos de um novo modelo de desenvolvimento, aliado à posição geoestratégica como fornecedores de serviços num mundo entre África – América – Ásia. E por que não entre África e Europa? –, afirmou Carvalho. Sobre a exploração petrolífera, o especialista atentou para a proteção do mar, e as necessidades de avaliar os impactos do processo e de acumular recursos em função da atividade.

A conferência foi promovida pela Associação da Comunidade Santomense (Acosp), na Universidade Lusófona, e teve ainda apresentação de obras do escritor Padre Sacramento Neto, além da presença da embaixadora são-tomense em Portugal, Alda Melo. Em debate, o público levantou outras questões cruciais: a necessidade de apoio aos agricultores, investimento em educação com a formação de professores primários, integração entre os programas dos partidos políticos, dar dimensão social ao volume de investimento, criar oportunidades de inserção, afirmar o país no espaço lusófono e, entre outras, resolver o mal crônico da corrupção.


quinta-feira, 9 de agosto de 2007

O 8 de dezembro em Florbela Espanca

A vida da poetisa alentejana Florbela Espanca parece ter tido um início e um fim já planejados, quem sabe sacramentados a 8 de dezembro, dia de Nossa Senhora da Conceição, padroeira de Portugal. Com uma trajetória curiosa, a escritora nasceu em 8 de dezembro (1913) e se suicidou em 8 de dezembro (1930). Foi batizada na igreja de N.S. da Conceição, aos 8 anos adotou o nome "da Conceição" e lecionou no Colégio N.S. da Conceição, em Évora. Em sua última noite, escreveu o soneto À morte e um mês antes de partir confessou a uma amiga que se suicidaria no dia de seu aniversário como um presente para si própria. O soneto é uma conversa da poetisa com a morte, personificada. Morte que teria dedos macios de veludo para quem Florbela pede que feche seus olhos, pois já tinham visto tudo.

À morte

Morte, minha Senhora Dona Morte,
Tão bom que deve ser o teu abraço!
Lânguido e doce como um doce laço
E como uma raiz, sereno e forte.

Não há mal que não sare ou não conforte
Tua mão que nos guia passo a passo,
Em ti, dentro de ti, no teu regaço
Não há triste destino nem má sorte.

Dona Morte dos dedos de veludo,
Fecha-me os olhos que já viram tudo!
Prende-me as asas que voaram tanto!

Vim de Moirama, sou filha de rei,
Má fada me encantou e aqui fiquei
À tua espera, ...quebra-me o encanto!

Guedes, Rui (2001). Florbela Espanca: poesia completa. Publicação Dom Quixote, 2 ed., Lisboa.

quinta-feira, 19 de julho de 2007

Minutos de memória

Tentei me lembrar o que ia dizer, mas as idéias se perderam nesse labirinto do tempo dito memória. Deve ser o mesmo lugar para aonde vão aquelas palavras que estavam na ponta da língua. Aí peguei novamente aquele livro que não consigo mais largar: Escrever. Como se trata de um livro de parágrafos aparentemente soltos sobre vários temas, abri em qualquer página como se deixasse a sorte me levar, como se fosse um daqueles minutos de sabedoria em que você pensa numa situação e separa aquele mar de folhas de papel correndo rapidamente os olhos pelas linhas do texto na esperança de encontrar uma exata palavra de conforto ou explicação. Deve ser uma espécie de necessidade do sobrenatural.

Mas é verdade, aconteceu: abri justamente na página 112, verbete 172 A memória. Lá diz que "Ela é quase sempre uma recuperação de imagens imóveis. Porque relembrar o movimento exige um esforço de deliberação. E a memória simplesmente aparece. Mas são imagens que se marcam ou douram de um envolvimento que as transfigura. Um halo, uma ténue neblina. E tudo isso inserido numa certa estação do ano, num certo momento do dia ou da noite. São imagens que se repetem na evocação de certos lugares como se os condenassem e nelas se resumisse ou aglomerasse a vida toda aí vivida. Uma hora de neve, de um gelo na face ao caminhar por uma rua com beirais das casas pingando a água do degelo. Uma certa hora de Outono em esguios castanheiros a desfolharem-se. Uma certa noite de Verão com uma grande lua a nascer. Um passeio pelo campo com flores silvestres que talvez ninguém mais veja. Memória de uma vida tão cheia do seu nada nesse breve instante que a resume toda. O melhor de si. Esse nada de si".

Creio que o maior desafio é conseguir não pensar em nada, esvaziar a mente, sem um risco de passado, presente ou hipótese de futuro (deve ser "esse nada de si"). A verdade é que ainda não consegui lembrar o que ia dizer. Mas o esquecimento às vezes vem a calhar. Valei-me Vergílio Ferreira.

quarta-feira, 18 de julho de 2007

amaré...

Vejam essa maravilha de cenário
É um episódio relicário
Que o artista num sonho genial
Escolheu para este carnaval
E o asfalto como passarela
Será a tela do Brasil em forma de aquarela
Passeando pelas cercanias do Amazonas
Conheci vastos seringais
No Pará, a ilha de Marajó
E a velha cabana do Timbó
Caminhando ainda um pouco mais
Deparei com lindos coqueirais
Estava no Ceará, terra de Irapuã
De Iracema e Tupã
E fiquei radiante de alegria
Quando cheguei na Bahia
Bahia de Castro Alves, do acarajé
Das noites de magia, do candomblé
Depois de atravessar as matas do Ipú
Assisti em Pernambuco
A festa do frevo e do maracatu
Brasília tem o seu destaque
Na arte, na beleza, arquitetura
Feitiço de garoa pela serra
São Paulo engrandece a nossa terra
Do leste, por todo o Centro-Oeste
Tudo é belo e tem lindo matiz
No Rio dos sambas e batucadas
Dos malandros e mulatas
De requebros febris Brasil, essas nossas verdes matas
Cachoeiras e cascatas
De colorido sutil
E este lindo céu azul de anil
Emoldura em aquarela o meu Brasil

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Papel para os anais

A piada é boa, estava num livro publicado na década de 40 pelo Secretariado da Propaganda Nacional (Agência Geral das Colónias) : O império colonial português. Em altíssimo nível de cara de pau, o capítulo Política de cooperação racial diz:

"Desde início, a nossa política de expansão colonial foi baseada num grande princípio de respeito humano pelos povos colonizados. A sua definição mais exacta é talvez a de cooperação racial se acrescentarmos que uma finalidade, mais alta ainda, a caracteriza especialmente, a finalidade de uma crescente nacionalização de tôdas as populações das nossas colónias.

Essa política tem uma base moral fortíssima e sempre mantida, a da Religião Católica, verdadeiramente sentida e vivida com a mais humana compreensão por todos os portugueses.

Separar a nossa expansão colonizadora da ideia missionária, Católica, que sempre a acompanhou seria negar a realidade. Seria também tornar incompreensível quanto fizemos e fazemos mais que nenhum outro povo colonizador para a elevação das populações dos territórios coloniais a que, por definição jurídica, chamamos de indígenas".

Esse registro de fato é papel para os anais!

domingo, 15 de julho de 2007

Águas de bacalhau

Depois da expressão portuguesa "águas de bacalhau", usada quando uma coisa não dá em nada, falha, acabo de experimentar as águas de Pé na cova (Penacova). Perfeita para molhar o céu da boca e digna do provérbio "desta água não beberei", para provar do produto não precisa estar com os dias contados, basta ter 0,50 centavos no bolso. Além do nome, quase divino, o rótulo ainda traz o slogan "eterna pureza" da Serra do Buçaco.

Diz na Wikipedia: a Serra do Buçaco é uma elevação de Portugal Continental e abrange o concelho de Penacova. A mata que existe ainda hoje na Serra do Buçaco foi mandada plantar pela Ordem dos Carmelitas Descalços no primeiro quarto do século XVII.