sexta-feira, 25 de maio de 2007

Portugalidade com cevada

Muito se fala no poder das imagens e dos símbolos, mas o texto publicitário da cerveja portuguesa Sagres faz valer a força da palavra. Um verdadeiro poema sobre a portugalidade que conclama um país que precisa ser reinventado a acordar diferente. "Naquele dia acordamos diferentes".

"Eu não sou dos Açores, nem do Algarve, nem do Porto, nem de Lisboa". Quer dar ao país uma unidade e reforçar a figura do Estado. Mais do que ser lisboeta, por exemplo, é ser português. "Sou de toda parte", a língua portuguesa está em toda a parte (em todos os continentes). "Sede de descobrir um novo país". Os portugueses que descobriram meio mundo não pararam para conhecer Portugal, de verdade. "Um país que aprendeu a apoiar junto a mesma seleção" mostra o sentimento do patriotismo despertado na última Copa, o que faz da propaganda também atual, não somente presa ao passado histórico.

Apesar de não se desgrudar dos feitos (e desfeitos) dos Descobrimentos ("Um país de descobridores que já conquistaram meio mundo"), o texto fala de valores sem ser saudosista, coloca de maneira leve as idéias e toca no emocional coletivo. Parece que deu certo o anúncio produzido pela Fischer PT. De acordo com o site Central de Cervejas.Pt, no final de 2004, a Sagres tinha 34,8 de cota de mercado; um ano depois chegava aos 38,1; no final de 2006 já atingiu os 41,0% com a nova roupagem.

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Texto:

Naquele dia acordamos diferentes
Acordamos com sede
Sede de descobrir um novo país
O país mais antigo da Europa,
mas que nunca foi tão moderno
Um país que aprendeu a apoiar junto a mesma seleção...
e que seleção!
E as mulheres...
Nesse país surgiu a palavra mais bonita: sociedade.
Mas para se sentir quando, e se quiser
Um país de descobridores que já conquistaram meio mundo.
Por isso, eu não sou dos Açores, nem do Algarve, nem do Porto, nem de Lisboa
Sou de toda a parte, sou daqui, encontra-me em Portugal.
Encontra-te aqui.

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quarta-feira, 23 de maio de 2007

Rugas de preocupação

Hoje é o julgamento de uma senhora de 70 anos que pode ser presa por ter furtado um creme de 3,99 euros. No ano passado a senhora, que está muito debilitada atualmente, foi apanhada por um segurança levando um creme do mercado Lidel, no Porto. O segurança pediu que ela devolvesse o produto e ela assim o fez. Meses depois recebeu acusação do Ministério Público do Porto, que somente com as fotocópias do processo já gastou valor bem superior ao do "dano". Além disso, o Estado paga 264 euros ao advogado por cada vez que comparece ao tribunal. Furto formigueiro ou furto simples: é assim classificado o caso. Como não tem dinheiro, a senhora pediu apoio judiciário. A sentença será divulgada no próximo mês e, dependendo do veredicto, a senhora pode ser condenada a até três anos de detenção. O absurdo beira a insanidade, já que esta senhora não deve ter saúde, nem estrutura financeira, muito menos emocional para enfrentar uma situação dessas.

terça-feira, 22 de maio de 2007

Hino Nacional de Moçambique

Na memória da África e do Mundo
Pátria bela dos que ousaram lutar
Moçambique o teu nome é liberdade
O sol de Junho para sempre brilhará brilhará
Moçambique nossa terra gloriosa
pedra a pedra construindo o novo dia
milhões de braços, uma só força
ó pátria amada vamos vencer

Povo unido do rovuma ao Maputo
colhe os frutos do combate pela Paz
cresce o sonho ondolado na bandeira
e vai lavrando na certeza do amanhã

Moçambique nossa terra gloriosa
pedra a pedra construindo o novo dia
milhões de braços, uma só força
ó pátria amada vamos vencer
Flores brotando do chão do teu suor
pelos montes, pelos rios, pelo marnós juramos por ti,
ó Moçambique: nenhum tirano nos irá escravizar

Moçambique nossa terra gloriosa
pedra a pedra construindo o novo dia
milhões de braços, uma só força
ó pátria amada vamos vencer

segunda-feira, 21 de maio de 2007

Cesário breve, vida Verde

Cesário Verde teve uma vida breve (1855-1886), mas bem produtiva. Ao conhecer alguns de seus poemas gostei do seu estilo por vezes ácido e irônico. Pertencente à geração de realistas e parnasianistas, em 1887 de suas obras dispersas fez-se a coletânea O livro de Cesário Verde, que neste fim de semana comprei em uma feira de usados por apenas 1 euro! Ele é a expressão poética das aspirações, sonhos e conflitos da pequena burguesia lisboeta. Diz o prefácio de Silva Pinto que o homem de vida pouca, apercebendo-se de que havia que fluir dela intensamente, já que o tempo urgia, transmite a sua obra a força dum pacto secreto. Alguns trechos da poesia de Cesário:

"Eu nunca dediquei poemas às fortunas,
Mas sim, por deferência, a amigos ou artistas.
Independente! Só por isso os jornalistas
Me negam as colunas".

"As burguesinhas do catolicismo
Resvalam pelo chão minado pelos canos;
E lembram-me, ao chorar doente dos pianos,
As freiras que os jejuns matavam de histerismo".

De tarde

Naquele piquenique de burguesas
Houve uma coisa simplesmente bela
E que, sem ter história nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aguarela.

Foi quando tu, descendo do burrico,
Foste colher, sem imposturas tolas,
A um granzoal azul de grão-de-bico
Um ramalhete rubro de papoulas.

Pouco depois, em cima duns penhascos,
Nós acampámos, inda o Sol se via;
E houve talhadas de melão, damascos,
E pão-de-ló molhado em malvasia.

Mas, todo púrpuro, a sair da renda
Dos teus dois seios como duas rolas,
Era o supremo encanto da marenda
O ramalhete rubro das papoulas!

terça-feira, 15 de maio de 2007

Minha língua no espelho

Se a língua é o reflexo da minha identidade é também nela que me reconheço nos falares do outro. Bem comum que deve ser partilhado e não (re)partido, como acontece com nosso fatigado idioma, que já está com a língua para fora. Esta então, quanto mais partida menos (com)partilhada. Quanto menos partilhada menos representativa - praticamente um efeito Tostines. Por esses dias me deparei com uma frase curiosa, fui ao Instituto Nacional de Estatísitica (INE) e o senhor que atende o público me disse "até no Brasil, que pode-se considerar um país de língua portuguesa". Pensei em dar a língua para ele, mas essa eles já nos deram. Aliás, deram mais que isso: a língua e um dedo. Quem estava de longe podia avistar logo acima da minha cabeça um balão escrito "ele deve ser mais um que acha que eu falo brasileiro, pqp". Resolvi me calar. Descobri que Portugal é um ótimo país para a prática do budismo. Quem sabe em mais poucos meses eu alcanço a iluminação.

domingo, 13 de maio de 2007

Passa o tempo, pensa o tempo

O conselho é pra quem gosta de escrever. No livro Pensatempos o moçambicano Mia Couto descreve como se mantém uma relação com o mundo que passe pela escrita literária. Ele diz que a escrita exige sempre a poesia. E a poesia é uma outra janela que se abre para estrearmos outro olhar sobre as coisas e criaturas.

"O segredo do escritor é anterior à escrita. Está na vida, na forma como ele está disponível a deixar-se tomar pelos pequenos detalhes do cotidiano".

"O conselho é: escutar. Tornarmo-nos atentos a vozes que fomos encorajados a deixar de ouvir. Tornemos essas vozes visiveis. E mantenhamos viva essa capacidade que já temos da nossa infancia de nos deslumbrarmos".

"So se escreve com intensidade se vivermos intensamente. Não se trata apenas de viver sentimentos mas de ser vivido por sentimentos" .

"Conhecermos para não sermos donos. Mas para sermos companheiros das criaturas vivas e não vivas com quem partilhamos este universo. Para escutarmos historias que nos são, em todo momento, contadas por essas criaturas".

Descarrego à Gomes de Sá

Desde que cheguei a Portugal, muito me despertava a curiosidade de assistir a uma sessão de descarrego no idioma da catequização. Procurei em alguns locais do Porto e, por ironia do destino, me mudei para um bairro onde há, bem pertinho, um templo gigantesco da Igreja Universal, em Vale Formoso (igreja foto). Passando duas ruas distante é possível avistar a construção enorme que atrai a cada dia mais fiéis. Lá entrei e fui logo convidada para a sessão de hoje, de oração para a família, mas a que me interessou foi a que acontece toda sexta-feira, para retirada da inveja e do olho gordo. "Vai-te, cala-te!" Fico imaginando o discurso. Na televisão os programas da Universal já ganham espaço com depoimentos de muitos portugueses. Me contou uma senhora que trabalha no local que a Universal está em Portugal há mais de 20 anos, tendo cinco igrejas no Porto e mais de 160 em todo país. Se os ventos levam o Papa ao Brasil, em Portugal o Catolicismo parece não estar na ordem estratégica do dia. Matéria publicada na Agência Lusa diz que o Papa recusou - por motivos de agenda - inaugurar uma igreja em Fátima, em outubro próximo. A aprovação da lei do aborto em Portugal também parece um sinal dos tempos. Deu ainda este mês na Agência Brasil que entre 1991 e 2006, os católicos no Brasil passaram de 83,8% para 68% da população, ao passo que os evangélicos no país passaram de 9% para 24%, no mesmo período.