terça-feira, 20 de março de 2007

Barbearia em Lisboa empolga bigodudos e cabeludos

Em "Para além da esquerda e da direita" Anthony Giddens diz que estamos em uma época na qual a modernidade ultrapassou os seus próprios limites. Vanguardista ou conservadora, uma barbearia em Lisboa está levando bigodudos e cabeludos pra além da empolgação. Na porta diz Proibida a entrada de menores de 18 anos. Isso porque lá dentro todos os serviços de barba, cabelo e bigode são feitos com atendentes que trabalham em trajes íntimos. A matéria deu no jornal da SIC, mas o conteúdo é exclusivo para assinantes. No entanto, é possível ver a chamada no link http://sic.sapo.pt/online/video/informacao/?p=4. O texto diz "clientes têm serviço especial". O repórter entrevistou donos de barbearias da concorrência, que estão inconformados com a nova modalidade que, pelo visto, não deixará barba sobre barba. Ou deixará?

quarta-feira, 14 de março de 2007

Olhos em absurdo

No final de março sai o resultado de votação feita pela RTP (Rádio e Televisão de Portugal) que pergunta quem é a personalidade mais marcante da história de Portugal? O processo de escolha começou em outubro passado e boa parte da população parece estar estarrecida com o aparecimento do ditador Salazar entre os finalistas, antes até mesmo de Fernando Pessoa e Camões, que eternizaram o país.

Pelo visto, não é só no Brasil que coexiste a mentalidade absurda de sentir saudade do tempo da ditadura. Você já pensou em quem votaria se fizessem uma eleição do maior simbolo brasileiro de todos os tempos?

A lista em Portugal é D. Afonso Henriques (rei), Álvaro Cunhal (político), António de Oliveira Salazar (ditador), Aristides de Sousa Mendes (diplomata), Fernando Pessoa (poeta), Infante D. Henrique (estadista), S. João II (rei), Camões (poeta), Marquês de Pombal (estadista), Vasco da Gama (navegador).

O varapau e o trinca-espinhas

São mesmo pérolas do idioma comum algumas expressões, como as encontradas no “Dicionário Contrastivo Luso-Brasileiro”(Mauro Villhar). Não sei se ainda ecoam por aí, posto que a edição do livro também está esgotada, mas vale a pena o registro:

Falhar vrb. em Portugal, dar em pantana (s), dar em águas de bacalhau.

Língua s.f. em Portugal, capacho, badalo * dar com a língua nos dentes espalhar-se, soprar, bufar * língua de sapato orelha de sapato.

Rosto (ô) s.f. cara, trombil, belfas, tromba, bitácula.

Solução s.f. * ser de solução difícil ou penosa em Portugal, dar água pela barba.

Sussurrar vrb. em Portugal, bichanar.

Susto s.m. em Portugal, calor. Tomar um susto, em Portugal, tomar um calor.

Sem-vergonha adj. S. 2g. em Portugal, mariola, artola (s), ciganão, marau, debochado, magano, ribaldo.

Varapau s.m. em Portugal, trinca-espinhas (pessoa alta e magra)

Vencer vrb. em Portugal, limpar o sebo.

segunda-feira, 12 de março de 2007

A pedalar com Wando

Me chamou atenção a seqüência de músicas de uma aula de spinning (aqui cycle). Tudo bem, fiquei contente de ouvir canções brasileiras, mas a mistura foi realmente um desafio ao relativismo cultural: Vanessa da Matta - Ai ai ai, Los Hermanos - Ana Júlia, Ney Matogrosso - Homem com H e, pra encerrar, Wando - Fogo e Paixão. Confesso que nunca imaginei pedalar ao som de meu iaiá, meu ioiô. E todo mundo cantando (claro, eu também).

Gostaria de ouvir músicas portuguesas e africanas em nossas rádios. É uma pena que o Brasil não oferece essa abertura. Gostei de um hip hop português de um grupo chamado Da Weasel, o nome é Dealetos da ternura. Quem quiser conferir o som está no link abaixo. Mas só de ouvido não consegui entender boa parte da letra, mesmo sendo a nossa mesma língua portuguesa.




História do grupo: nascem em meados de 1993, como um projecto 100% em inglês e numa onda experimentalista. Um ano depois, dá-se a primeira aventura discográfica do grupo com o EP "More Than 30 Motherfs". Não demoraria mais de um ano, para que editassem o primeiro álbum – "Dou-lhe com a Alma" – que é, simultaneamente, a primeira gravação de hip-hop de uma banda portuguesa; um trabalho em que se assinala a transição para o português como língua dominante.

(fonte: www.daweaselonline.com/)

sábado, 10 de março de 2007

Surfistinha dá o que falar em Portugal

A literatura brasileira deve estar mesmo na crista da onda em Portugal com o livro de Bruna Surfistinha, que na capa tem como subtítulo "O diário secreto de uma garota de programa brasileira". Nas livrarias que percorri o livro aparece em todas as vitrines e, em Lisboa, dividia área de destaque até mesmo com Saramago.

Não sei se no original traz na capa que é uma menina brasileira ou se é só na versão Europa. Mas o livro deu mesmo o que falar por aqui. Outro dia peguei um táxi (coisa rara, pois vida de bolsista é "perrengar") e assim que o motorista percebeu a brasilidade do meu verbo veio com o comentário: você viu aquela menina brasileira que lançou um livro dizendo que durante X tempo esteve com X homens? Para divulgar o lançamento do livro em Portugal, a Editora deixou pelas ruas fotos polaroids de Surfistinha, com o seguinte texto escrito à mão: "Queres saber mais sobre mim? Vai a.... e fornecia o site.

A cultura portuguesa no divã

O livro Filhos da mãe, de Maria Belo, coloca a cultura portuguesa no divã. "Os portugueses comportam-se como povo que teve mãe, mas é órfão de pai (...) E esta explicação poderia ter desenvolvimento psicanalítico."
(António José Saraiva). Não li o livro, mas a idéia é interessante. De acordo com o blog http://literaturaemanalise.blogspot.com/, a tese aponta que a portuguesidade é a ordem da "ausência do pai", desde o nascimento da Portugal, com D. Afonso Henriques, passando pela partida dos homens para os "Descobrimentos" e pela emigração clandestina durante a ditadura salazarista.

"Como se quem tivesse partido não fossem os homens, mas algo de essencial com eles, esse objecto primitivo feito em seguida objecto patriótico. Como se a percepção inicial do pai real, o pai da estrutura, fosse a de um objecto perdido com o qual não temos relação, desde sempre e definitivamente Outro. Como se essa percepção da perda desse 'intimo-estranho', que caracteriza para os humanos o pai real, fosse duplicado pela ausência física e simbólica do pai. E não restasse senão um pai imaginário e todo poderoso." (Maria Belo - Filhos da Mãe)

Mais um suspiro do acordo ortográfico

Deu na Agência Lusa. "Secretário da CPLP vai acelerar acções para ratificar acordo ortográfico. São Paulo, Brasil, 10 Mar (Lusa) - O secretário-executivo da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), embaixador Luís Fonseca, afirmou no Brasil que planeia acelerar as acções necessárias para a ratificação do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa".

No dia 16 de dezembro de 1990 foi assinado, em Lisboa, por representantes de Portugal, Brasil, Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau e S. Tomé e Príncipe, o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. Com base no projeto de texto de ortografia unificada, o documento teve aprovação da Academia de Ciências de Lisboa e da Academia Brasileira de Letras (ABL), que desenvolveram o documento desde 1986. Para redigir o projeto de Ortografia Unificada foi formada uma comissão integrada para cada país, tendo no Brasil como representantes Antônio Houaiss e Nélida Piñón. Em 1991, o AO foi ratificado pelo parlamento português; no Brasil, a aprovação do Senado só se deu em 1994. (Houaiss, Antônio. A nova ortografia da Língua Portuguesa. Editora Ática).


Há alguns anos tentei entrevistar o diretor do Instituto Antônio Houaiss, Mauro Villar, sobre o tema para uma pesquisa de final de curso. Mas infelizmente não pude ser recebida. Procurei então a escritora e ex-presidente da ABL (gestão de 1997), Nélida Piñon, que declarou ser o AO “um documento muito bonito”. E disse ainda que para ela fora válido na ocasião o convívio com Antônio Houaiss, assim como com os demais participantes. E que, no entanto, não houve um envolvimento maior de sua parte nesta ação. Perguntei assim como se deu sua escolha para representar o Brasil, ela contou que o então presidente da ABL, Austregésilo de Athayde, se encantou por sua obra e a indicou para tal missão. “Eu tomei posse na ABL em 3 de maio de 1990, era o mais recente membro, e o presidente então fascinado comigo me designou para a função. Sobre o AO, o que posso dizer é que o Congresso português aprovou logo, mas o brasileiro não deu muita importância para o assunto e os portugueses levaram a questão adiante”, disse a imortal na ocasião.

São nada menos que 60 anos de tentativas malogradas de consolidar o acordo ortográfico. Os que concordam falam de sua necessidade pela unificação do mercado editorial e da linguagem de documentos, os que desaprovam acreditam que seria uma camisa de força para o idioma.